Por Machado de Assis (1874)
— Que nos importa isso? disse o padre Flávio depois de alguns instantes de silêncio. Gostou de mim algum tempo; hoje não gosta; não o censuro por isso, nem me queixo. É conveniente que nos acostumemos às variações do espírito e do coração. Pela minha parte não mudei a seu respeito; mas...
Calou-se.
— Mas? perguntou Vilela.
— Mas não devo voltar lá.
— Ah!
— Sem dúvida. Acha bonito que freqüente uma casa onde não sou bem aceito? Seria afrontar o dono da casa.
— Bem; não iremos mais lá.
— Não iremos?
— Sim, não iremos.
— Mas por que razão há de Vossa Reverendíssima...
— Porque sim, disse resolutamente o padre Vilela. Onde tu não fores recebido com prazer, eu não posso decentemente meter os pés.
Flávio agradeceu mais esta prova de afeição que lhe dava o seu velho amigo; e procurou demovê-lo do propósito em que se achava; mas foi em vão; Vilela persistia na resolução anunciada.
— Bem, disse Flávio, irei lá como dantes.
— Mas essa agora...
— Não quero privá-los da sua pessoa, padre-mestre.
Vilela procurou convencer ao amigo de que não devia ir se tinha escrúpulo nisso. Flávio resistiu a todas as razões. O velho padre coçou a cabeça e depois de meditar algum tempo, disse.
— Pois bem, eu irei só.
— É o melhor acordo.
Vilela mentia; sua resolução era não ir mais lá, desde que o amigo não ia; mas ocultava esse plano, pois que era impossível fazê-lo aceitar por ele.
VIII
Decorreram três meses depois do que acabo de narrar. Nem Vilela nem Flávio voltaram à casa de João Lima; este foi uma vez à casa dos dois padres com a intenção de perguntar
a Vilela porque razão deixara de o visitar. Achou-o só em casa; disse-lhe o motivo da sua visita. Vilela desculpou-se com o amigo.
— Flávio anda melancólico, disse; e eu que sou tão amigo dele, não o quero deixar só. João Lima franziu o sobrolho.
— Anda melancólico? perguntou ele no fim de algum tempo.
— É verdade, continuou Vilela. Não sei que tem; pode ser moléstia; em todo o caso não o quero deixar só.
João Lima não insistiu e retirou-se.
Vilela ficou pensativo. Que quereria dizer o ar com que o negociante lhe falara a respeito da melancolia do amigo? Interrogou as suas reminiscências; conjecturou à larga; nada concluiu nem encontrou.
— Tolices! disse ele.
A idéia porém não lhe saiu mais do espírito. Tratava-se do homem a quem mais amava; era razão para que o preocupasse. Dias e dias gastou em espreitar o misterioso motivo; mas nada alcançou. Zangado consigo mesmo, e preferindo a tudo a franqueza, Vilela resolveu ir diretamente a João Lima.
Era de manhã. Flávio estava a estudar no seu gabinete, quando Vilela lhe disse que ia sair.
— Deixa-me só com a minha carta?
— Que carta?
— A que me deu, a misteriosa carta de minha mãe.
— Vais abri-la?
— Hoje mesmo.
Vilela saiu.
Ao chegar à casa de João Lima ia este sair.
— Preciso falar-lhe, disse-lhe o padre. Vai sair?
— Vou.
— Tanto melhor.
— Que ar sério é este? perguntou Lima rindo.
— O negócio é sério.
Saíram.
Sabe o meu amigo que eu não tenho sossegado desde que desconfiei de uma coisa...
— De uma coisa!
— Sim, desde que desconfiei que o meu amigo tem alguma coisa contra o meu Flávio.
— Eu?
— O senhor.
Vilela olhou fixamente para João Lima; este baixou os olhos. Foram andando assim silenciosamente durante algum tempo. Era evidente que João Lima queria ocultar alguma coisa ao padre-mestre. O padre é que não estava disposto a que se lhe escondesse a verdade. Ao fim de um quarto de hora Vilela rompeu o silêncio.
— Vamos lá, disse ele; diga-me tudo.
— Tudo o quê?
Vilela fez um gesto de impaciência.
— Para que procura negar que há alguma coisa entre o senhor e o Flávio. É isso que eu desejo saber. Sou amigo dele e seu pai espiritual; se ele errou desejo castigá-lo; se o erro é seu, peço licença ao senhor para castigá-lo.
— Falemos de outra coisa...
— Não; falemos disto.
— Pois bem, disse João Lima com resolução; dir-lhe-ei tudo, com uma condição.
— Qual?
— É que há de ocultar tudo a ele.
— Para quê, se merecer corrigi-lo?
— Porque é necessário. Não desejo que transpire nada desta conversa; é tão vergonhoso isto!...
— Vergonhoso!
— Desgraçadamente, é vergonhosíssimo.
— É impossível! exclamou Vilela não sem alguma indignação.
— Verá.
Seguiu-se um novo silêncio.
— Eu era amigo de Flávio e admirador das suas virtudes como dos seus talentos. Era capaz de jurar que nunca um pensamento infame lhe entraria no espírito...
— E então? perguntou Vilela trêmulo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Muitos anos depois. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1874.