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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

Jorge ergueu os olhos, sem dizer palavra, mas desejoso de referir tudo. Venceu-o o desejo. A um sinal de Jorge, acompanhou-o Luís Garcia até o terraço. Entrados no terraço, Jorge não pôde ter mão à língua. — O senhor é amigo velho de nossa casa, disse ele; posso confiar-lhe tudo. Mamãe quer mandar-me para a guerra, porque não pode obstar os movimentos do meu coração.

— Algum namoro, concluiu friamente Luís Garcia.

— Uma paixão.

— Está certo do que diz?

— Estou.

— Não creio, tornou Luís Garcia depois de um instante.

— Por que não? Ela conta com a distância e o tempo, para matar um amor que supõe não haver criado raízes profundas.

Luís Garcia dera alguns passos, acompanhado pelo filho de Valéria; parou um instante, depois continuaram ambos a passear de um para outro lado. O primeiro refletia na explicação, que lhe pareceu verossímil, se o amor do rapaz era indigno de seu nome. Essa pergunta não se animou a fazê-la; mas procurou uma vereda tortuosa para ir dar com ela. — Uma viagem à Europa, observou Luís Garcia depois de curto silêncio, produziria o mesmo resultado, sem outro risco mais que...

— Recusei a viagem, foi então que ela pensou na guerra.

— Mas se ela quisesse ir à Europa, o senhor recusaria acompanhá-la?

— Não; mas mamãe detesta o mar; não viajaria nunca. É possível que, se eu resistisse até à última, em relação à guerra, ela vencesse a repugnância ao mar e iríamos os dous...

— E por que não resistiu?

— Primeiramente, porque estava cansado de recusar. Há mês e meio que dura esta luta entre nós. Hoje, à vista das notícias do Sul, falou-me com tal instância que cedi de uma vez. A segunda razão foi um sentimento mau — mas justificável. Escolho a guerra, a fim de que se alguma cousa me acontecer, ela sinta o remorso de me haver perdido. Luís Garcia parou e encarou silenciosamente o mancebo.

— Sei o que quer dizer esse olhar, continuou este; acha-me feroz, e eu sou apenas natural. O sentimento mau teve só um minuto de duração. Passou. Ficou-me uma sombra de remorso. Não acuso mamãe; sei as lágrimas que lhe vai custar a separação...

— Ainda é tempo de recuar.

— O que está feito, está feito, disse Jorge erguendo os ombros.

— Sabe que mais? Acho mau gosto dar a este negócio um desenlace épico. Que tem que fazer nisto a guerra do Paraguai? Vou sugerir-lhe um meio de arranjar as cousas. Ceda metade somente, vá à Europa sozinho, volte no fim de dous ou três anos...

Jorge sorriu desdenhosamente.

Seu conselho mostra a diferença de nossas idades, disse ele. Se eu fosse para a Europa, que sacrifício faria à pessoa a quem amo? Pelo contrário, a sacrificada era ela. Eu ia divertir-me, passear, ver cousas novas, talvez achar novos amores. Indo à guerra, é diferente; sacrifico o repouso e arrisco a vida; é alguma cousa. Separados, embora, não me negará sua estima...

— Sua estima? disse Luís Garcia admirado.

Não continuou; mas Jorge compreendeu, por aquela só palavra, a que classe de mulheres ele supunha pertencer a eleita de seu coração. Fez um gesto de nobre protesto; mas não se animou a dizer nada. Arrependeu-se talvez de haver dito tanto; é o destino dos corações indiscretos. Sem ousar recomendar-lhe silêncio, começou a insinuá-lo delicadamente; tática escusada, porque Luís Garcia não era homem de revelar o que se lhe confiava; e perigosa, porque fazia crescer as proporções do mistério. Luís Garcia sorriu interiormente ao sentir a arte cautelosa de Jorge; e quando ela lhe pareceu enfadonha:

— Descanse, disse ele; não receie que eu vá publicar seus amores. Repito-lhe o conselho: não se atire de cabeça para baixo numa aventura sem fundo. Ir para a guerra é muito nobre, mas há-de ser levado de outros sentimentos. Um desacordo por motivo de namoro, não é o Porto Alegre nem o Polidoro, é um padre que lhe deve pôr termo. Jorge sorriu com ar afável, e despediu-se de Luís Garcia; foi dali vestir-se para ir ao teatro. Luís Garcia estava mais do que nunca resoluto a lavar as mãos, como Pilatos deixar que os acontecimentos tivessem seu livre curso, sem nenhuma intervenção sua. Logo que Jorge saiu, dispôs-se a fazer o mesmo, despedindo-se de Valéria. Esta acompanhou-o até à porta da sala.

— Não me diz nada? perguntou ela quando o viu prestes a transpor a porta.

— Que lhe hei de dizer?

— Falou a meu filho?

— Falei.

— Achou-o disposto?

— Não digo que não.

— Mas de má vontade?

— Não digo que sim.

Valéria sorriu com uma ponta de amargo despeito.

— Vejo que este assunto o aborrece, murmurou ela.

Luís Garcia protestou com o gesto. Valéria encostou-se ao portal, e olhou friamente para ele. Houve uma curta pausa entre ambos.

— Ninguém! exclamou ela. Não tenho ninguém a meu lado. Vá; ficarei só. Luís Garcia condoeu-se dela. — Sejamos francos, disse; seu filho cede, mas cede violentado, e não vejo que se possa fazer dele um herói. Que motivo tão forte obriga a exigir desse moço um sacrifício superior a suas posses?

Valéria não respondeu.

— Sei o motivo, disse ele daí a um instante.

(continua...)

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