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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

BRAZ – E assim é que deve ser; começaremos hoje, e aqui mesmo. (A um

homem que passa.) Humilde servo de V. Ex. (Cumprimentam-se.) VIOLANTE – Quem é?

BRAZ – Um candidato a concordata próxima, ou a falência que deixa inteiro o quebrado: a madrinha não compreende? pois eu lho explico de modo tão lúcido que no fim da explicação ainda menos entenderá.

VIOLANTE – Ora venha mais essa.

BRAZ – Há quebrar, e quebrar; quebrar direito que deixa um homem sem serventia: é o infortúnio de banqueiros e negociantes honrados, a quem prejuízos inevitáveis e os desconcertos de muitos arrastam fatalmente para ruína imerecida: esses são uns patetas, que a sociedade castiga com o menos-cabo, porque ficam pobres; quebrar torto é outra coisa: é uma sorte de equilíbrio, em que o bom ginástico se entorta, fingindo cair para levantar-se mais direito. Entendeu?

VIOLANTE – Vou percebendo, Braz.

BRAZ – Pois é a estes que me refiro; concordata quer dizer a discordância afinada entre o devedor e os credores; falência quer dizer grande sobra realizada pela mágica da rebentação; exemplo: este meu amigo deve à praça mais de quatro mil contos e calcula suavemente com o sacrifício de quinze por cento para consolação dos credores; mas pode crer que ele fica inteiro depois de quebrado, e que por isso a sociedade há de cumprimentá-lo com todo o respeito. (A um velho e uma jovem que passam.) Escravo submisso da excelentíssima!... senhor comendador, sempre a remoçar! (Cumprimentam-se.)

VIOLANTE – A filha deste velho é bem bonita!

BRAZ – Vinte e um anos e sua esposa há dois.

VIOLANTE – Que!

BRAZ – O meu amigo comendador é menos velho do que parece; não lhe pesam os setenta anos que completou há oito dias; o santo homem é um pouco muçulmano: passando às suas quintas núpcias ao desposar aquela moça, nem por isso emendou-se dos costumes antigos; mudou de odalisca ha três meses e entretém com prodigioso luxo uma menina de dezesseis anos, comprada à miséria de seus pais. Ah! esquecia-me de prevenir a madrinha que ele conta numerosos e jovens amigos.

VIOLANTE – E a pobre mulher?

BRAZ – Inviolável e sagrada: vive abençoando com ambas as mãos a odalisca, e tem um primo, doutor em medicina, que receita ao velho marido passeios freqüentes e distrações fora de casa.

VIOLANTE – Que língua envenenada!

CENA III

VIOLANTE, BRAZ, CLEMÊNCIA e AUGUSTO

CLEMÊNCIA – A titia já viu o peixe boi?

VIOLANTE – Ainda não: vens apresentar-mo?

CLEMÊNCIA – O sr. Braz pode encarregar-se disso: agora vou ao terraço ver o mar.

AUGUSTO – O mar?... é a imagem da inconstância: não se espelhe no mar. (Vão-

se.)

CENA IV

VIOLANTE e BRAZ

VIOLANTE – E por fim de contas Casimiro como abandona assim a filha?...

BRAZ – Casimiro não abandona, confia a filha; ele tem mais que fazer, e nós também; reparou que Clemência trazia na mão um ramalhetinho de violetas?

VIOLANTE – Reparei...

BRAZ – Pois agora é o dr. Augusto que o traz ao peito.

VIOLANTE – É escandaloso! de dia tão claro!... no meu tempo não era assim.

BRAZ – Já sei: no seu tempo era de noite que se davam os ramalhetes; mas daqui a pouco darei ao dr. Augusto informações da madrinha; creio que logo depois um passeio pelo braço desse cavalheiro lhe fará bem, e... se a madrinha não for peca, o ramalhetinho de violetas será seu.

VIOLANTE – Isso tenta... Braz, penso que começas a desmoralizar-me.

BRAZ – Será uma vitória digna dos seus óculos e da sua touca.

VIOLANTE – Do meu dinheiro, queres dizer.

BRAZ – A palavra tem o seu pudor, disse Lamartine; eu respeito as conveniências. (Vendo passar uma moça.) Olá! temos revolução no jardim! aí vai a Acrobata.

VIOLANTE – Que é a Acrobata?

BRAZ – Uma das vinte desmentidoras da moléstia da época; uma das vinte pestes que dão público testemunho da saúde perfeita da situação econômica. Brada-se por toda parte: “não há dinheiro!” oh! se há! e sobra tanto que as mãos cheias se atira no lenteiro.

VIOLANTE – Como é isso?

BRAZ – Como esta mais dezenove no galarim; carros com parelhas magníficas, cada dia novo e riquíssimo vestido, pérolas, brilhantes, cinqüenta contos por ano multiplicados por vinte mil contos dados ao culto do vício torpe, afora as ceias e orgias, afora a milenária escala da lubricidade, que vai descendo até a ralé da infâmia. E não há dinheiro! mentira; prova da mentira: a Acrobata pela vigésima parte.

VIOLANTE – Então... essa desgraçada criatura...

(continua...)

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