Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
E este casal representou logo e continuou a representar o mais interessante contraste. Venâncio é débil, condescendente e pacato; se algumas vezes se empina, é para logo dobrar-se mais humildemente que nunca. Tomásia é forte, decisiva, arrogante e valentona. Não sabe senão mandar e quer sempre ser obedecida. Vendo de longe a sociedade elegante, trata de arremedá-la, e faz-se uma completa caricatura do que ela chama grande tom. Conhecendo cedo o gênio e caráter de seu esposo, tornou-se a déspota, a tirana do pobre homem; e para servirmo-nos de um pensamento dela mesma, escreveremos suas próprias palavras: “Venâncio, diz ela mil vezes, nesta casa a tua vontade é uma colônia, de que a minha voz é a metrópole.” E o pobre Venâncio, casado há vinte e dois anos, há vinte e dois anos que faz inúteis planos de independência; todos os dias levanta-se com disposição de sustentar a pé firme uma batalha decisiva, mas às primeiras cargas do inimigo larga as armas, bagagens e tudo, e põe-se em retirada, ou as mais das vezes ajoelha-se e implora anistia.
Ultimamente havia escaramuças diárias: a razão aqui vai. Tomásia tivera nos primeiros cinco anos dois filhos; depois parece que a natureza lhe gritou stop; passaram-se dezesseis e ao correr o décimo sétimo veio, contra a expectativa de Venâncio, mais uma menina, para fazer a conta de três. Tomásia saudou com entusiasmo esse acontecimento. Segundo certa aritmética exclusivamente feminina, algumas senhoras quando chegam aos quarenta anos contam a sua idade no sentido inverso do que até então praticaram: isto é, no ano que se segue àquele em que fizeram quarenta, contam trinta e nove; no outro que vem, trinta e oito, até que chegam segunda vez aos trinta, em que costumam fazer uma estação de um lustro. Ora, Tomásia, mais velha que seu marido três anos, já tinha exatamente três anos de estação, mas, vindo inopinadamente a nova menina, entendeu lá consigo que era preciso contar menos de trinta para ter filhos, e, pois, foi dizendo que se enganara na conta de sua idade; pois que não tinha mais que vinte e nove anos. Todavia, essa importante revelação não ficava bem-sabida, confiando-se somente às visitas e vizinhas, e, portanto, Tomásia declarou a seu marido que sua filha seria batizada com estrondo; e que se daria um elegante sarau em honra da recém-nascida. Venâncio opunha-se a isso pelo mau estado em que se achavam seus negócios financeiros; a mulher bradava; Rosa votava pelo sarau, Manduca também; e a casa andava de poeira levantada. Também jamais Venâncio se mostrara tão valente.
Na manhã do dia que se seguiu à noite tempestuosa descrita no capítulo antecedente, Venâncio achava-se na sala de sua casa, sentado no canapé, triste e silencioso como um marido infeliz, que se vê a sós; vestia uma calça de brim escuro, e uma niza branca, tinha no pescoço um lenço de seda, de dentro do qual surdiam enormes e pontiagudos colarinhos; junto dele descansavam seus óculos sobre o Jornal do Commercio e, tendo de esperar que se levantasse sua mulher, Venâncio com uma perna descansada sobre a outra e exalando sentidíssimos suspiros, empregava o tempo em passar meigamente os dedos sobre o grande nariz, que devia à natureza, e que, depois de seus filhos, era o objeto que mais idolatrava no mundo.
No dia anterior, Venâncio tinha tido uma acalorada questão com sua mulher; porque, ao vê-la entrar na sala com os cabelos desgrenhados, não lhe fizera a menor reflexão sobre isso: daí passaram à discussão da ordem do dia, e gritou-se sobre o batizado, como se grita em certo corpo coletivo, quando se trata de eleições.
As idéias do dia passado assustavam, portanto, ao pobre Venâncio, que temia ver reproduzidas as mesmas cenas; além disso, tinham batido dez horas, e Tomásia com suas filhas dormiam a sono solto. O infeliz homem sofria em silêncio todas as torturas da fome, quando, passada ainda meia hora, uma porta se abriu, e por ela entrou Tomásia com os cabelos soltos e o vestido desatado. Venâncio lembrou-se logo que, por não reparar nesse desalinho, fora já acometido, e, pois, ergueu-se para receber nos braços o seu flagelo, e, cruelmente risonho, exclamou:
— Oh, querida Tomasinha!... pois assim te ergues e sais do teu gabinete sem te penteares, e...
— E que tem o senhor com isso?... bradou a mulher, porventura quer que durma penteada, ou já me facilitou um cabeleireiro para toucar-me apenas me levanto da cama?... é impossível!... não se pode viver sossegada com um velho impertinente como o senhor.
— Está bem, minha Tomásia... não te aflijas... eu disse aquilo só para falar.
— Isso sei eu; porque o senhor é um desenxabido... tanto lhe faz que eu ande malvestida, mal toucada ou não... para o senhor é a mesma coisa... não tem gosto... não presta para nada...
— Pois mulher... eu já não disse, que...
— Pois se disse, é o mesmo que se não dissesse, porque o senhor não sabe dizer senão asneiras...
— Tomásia... estás hoje cruelmente impert... infe... zanga...
— O que é que diz?... o que é que eu estou?... hem?...
— De mau humor, Tomásia, de mau humor...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.