Por Gregório de Matos (1650)
O que o provérbio tantas vezes canta,
Que quem ousadamente se adianta.
Em vez de tosquear fica sem pêlo?
Intentastes sangrar toda a comarca,
Mas ela vos sangrou na veia d'arca
Pois ficando faminto, e sem sustento,
Heis de buscar a dente qual jumento
Erva para o jantar, e para a ceia,
E se talvez o campo a escasseia,
Mirrado heis de acabar no campo lhano,
Fazendo quarentena todo o ano:
Mas então poderá vossa porfia
Declarar aos Fregueses cada dia.
Sois tão grande velhaco,
Que a pura excomunhão meteis no saco:
Já diz a freguesia,
Que tendes de Saturno a natureza,
Pois os Filhos tratais com tal crueza,
Que os comeis, e roubais, qual uma harpia;
Valha-vos; mas quem digo, que vos valha?
Valha-vos ser um zote, e um canalha:
Mixelo hoje de chispo,
Ontem um passa-aqui do Arcebispo.
Mas oh se Deus a todos nos livrara
De Marão com poder, vilão com vara!
Fábula dos rapazes, e bandarras,
conto do lar, cantiga das guitarras.
Enquanto vos não parte algum corisco,
Que talvez vos despreza como cisco,
E fugindo a vileza desse couro,
Vos vai poupando a cortadora espada,
Azagaia amolada,
A veloz seta, o rápido pelouro:
Dizei a um confessor dos aprovados,
Vossos torpes pecados,
Que se bem o fazeis, como é preciso
Fareis um dia cousa de juízo:
E uma vez confessado,
Como vos tenha Deus já perdoado,
Todos vos perdoaremos
Os escândalos mil, que de vós temos,
E comendo o suor de vosso rosto
Dareis a Deus prazer, aos homens gosto.
AO VIGÁRIO ANTÔNIO MARQUES DE PERA DA ENCOMENDADO NA IGREJA DA Va DE S. FRANCISCO AMBICIOSO, E DESCONHECIDO.
Da tua Perada mica
não te espantes, que me enoje,
porque é força, que a entoje
sendo doce de botica:
o gosto não se me aplica
a uma conserva afamada,
e em botes tão redomada,
que sempre por ter que almoces,
achas para tão maus doces
a tutia preparada.
Se tua Tia arganaz
te fez essa alcomonia,
com colher não te faria,
com espátula te faz:
criaste-te de rapaz
co pingue dessas redomas,
e hoje tal asco lhe tomas,
que tendo uma herança rica
hás raízes da botica,
contudo não tens, que comas.
Teu juízo é tão confuso,
que quando a qualquer cristão
lhe entra o uso de rezão,
de então lhe perdeste o uso:
sempre foste tão obtuso,
que já desde estudante
te tinham por um doudete,
porque eras visto por alto,
na fala falso contralto,
na vista fino falsete.
Correndo os anos cresceste,
e se dizia em sussurro,
que era o teu crescer de burro,
pois cresceste, e aborreceste:
logo em tudo te meteste,
querendo ser eminente
nas artes, que estuda a gente,
mas deixou-te a tua asnia
Abel na filosofia,
na poesia inocente.
Deram-te as primeiras linhas
versos de tão baixa esfera,
que o seu menor erro era
serem feitos às Negrinhas:
com estas mesmas pretinhas,
por mais que te desbatizes,
gastaste os bens infelizes
do Marquês fino herbolário,
porque todo o Boticário
é mui rico de raízes.
Sendo um zote tão supino,
és tão confiado alvar,
que andas por i a pregar
geringonças ao divino:
pregas como um capuchino,
porque essa traça madura
um curado te assegura,
crendo Sua Senhoria,
que a botica te daria
as virtudes pare a cura.
Mas ele se acha enganado,
porque vê evidentemente,
que os botes para um doente
são, mas não pare um curado:
entraste tão esfaimado
a comer do sacrifício,
que todo o futuro ofício
cantaste sobre fiado,
pelo tirar de contado
ao dono do benefício.
Nenhuma outra cousa é
este andar dos teus alparques,
mais que ser Filho de Marques
vizinho da Santa Sé:
outro da mesma ralé
tão Marques, e tão bribante
te serve agora de Atlante,
porque para conjurer-se,
é facil de congregar-se
um com outro semelhante.
AO PADRE DAMASO DA SILVA PARENTE DO POETA, E SEU OPOSTO, HOMEM DESBOCADO, E PRESUNÇOSO COM GRANDES IMPULSOS DE SER VIGÁRIO, SENDO POR ALGUM TEMPO EM NOSSA SENHORA DO LORETO.
Dâmaso, aquele madraço,
que em pés, mãos, e mais miúdos
pode bem dar seis, e ás
ao major Frisão de Hamburgo:
(continua...)
BRASIL. Crônica do Viver Baiano Seiscentista. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16657. Acesso em: 30 nov. 2025.