Por Padre Antônio Vieira (1655)
Vês, homem, aquela cruz em que está pendente e morto o Filho de Deus? Pois sabe que ela é a balança justa em que Deus pesou o preço da tua alma, para que tu a não desprezes. O braço direito desceu tanto com o peso, que não só trouxe Deus do céu à terra, mas do céu até o inferno; e o braço esquerdo subiu tanto, que, estando a alma no inferno pelo pecado, não só a levantou do inferno, mas a pôs no céu. De maneira que quem fielmente quiser pesar uma alma, não há de pôr de uma parte da balança a alma, e da outra o mundo, senão de uma parte a alma, e da outra a Deus. O mundo custou a Deus uma palavra; a alma custou a Deus o sangue, custou a Deus a vida, custou a Deus o mesmo Deus: Qui dedit semetipsum redemptionem pro omnibus.14 Ouvi agora a Eusébio Emisseno: Tam copioso munere ipsa redemptio agitur, ut homo Deum valere videatur: É tal o preço que Deus deu pelas almas, que, posta de uma parte a alma, e da outra o preço, parece que vale tanto a alma como Deus. – Parece, diz, porque Deus verdadeiramente vale e pesa mais que toda a alma. Mas a divina justiça não pôs em balança com a alma outro peso, nem aceitou por ela outro preço, que o do mesmo Deus, porque, de peso a peso, só Deus se pode contrapesar com a alma, e, de preço a preço, só Deus se pode avaliar com ela: Ut Deum valere videatur. Sendo pois esta a verdadeira balança, e sendo este o peso e o preço da alma, que tão cara comprou Deus e nós tão barata vendemos ao demônio, não vos quero persuadir que a não vendais: só vos peço, e vos aconselho, que o não façais sem a pôr primeiro em leilão. O demônio, no primeiro lanço, ofereceu por ela o mundo; Deus, no segundo lanço, deu por ela a si mesmo. Se achardes quem vos dê mais pela vossa alma, dai-a embora.
72. Toda a desgraça da pobre alma, tão falsamente avaliada, e tão vilmente trocada e vendida, é porque a não vemos como vemos o mundo. O demônio mostrou todos os reinos do mundo: Ostendit ei omnia regna mundi. Se eu também vos pudera mostrar uma alma, estavam acabadas todas as tentações, e não eram necessários mais discursos. O demônio dá todo o mundo por uma alma, porque a vê e a conhece: é espírito, vê as almas. Nós, como somos corpo, vemos o mundo e não vemos a alma, e porque a não conhecemos, por isso a desestimamos. Oh! se Deus nos mostrasse uma alma! Que pasmo, que estimação seria a nossa, e que desprezo de quanto há no mundo e na vida! Mostrou Deus uma alma a Santa Madalena de Pazzi, e oito dias ficou fora de si, arrebatada, de assombro, de pasmo, de estranheza, só na memória, na admiração, na novidade do que vira. Isto é uma alma? Isto é. A Santa Catarina de Sena mostrou-lhe Deus também uma alma, e dizia – como refere Santo Antônio – que nenhum homem haveria, se tivesse visto uma alma, que não desse por ela a vida cem vezes cada dia, e não pela própria, senão pela alheia. De sorte que toda a diferença e toda a desgraça está em que o mundo, com que o demônio nos engana, é visível, e a alma invisível. Mas por isso mesmo havíamos nós de estimar muito mais a alma, se tivéramos juízo. O mundo é visível, a alma é invisível; o mundo vê-se, a alma não se vê. Logo muito mais preciosa é a alma, muito mais vale que todo o mundo. Ouvi a S. Paulo: Non contemplantibus nobis quae videntur sed quae non videntur: quae enim videntur temporalia sunt; quae non videntur, aeterna (2 Cor. 4, 18): Não havemos de admirar, nem estimar o que se vê, senão o que se não vê – diz S. Paulo – porque o visível, o que se vê, é temporal; o invisível, o que se não vê, é eterno, – O mundo que o demônio me mostra é visível, porque é temporal como o corpo; a alma que o demônio não pode mostrar – nem me havia de mostrar, se pudera – é invisível, porque é eterna como Deus; e, assim como os olhos não podem ver a Deus por sua soberania, assim não podem ver a nossa alma. Não é a nossa alma tão baixa que a houvessem de ver os olhos. Vêem o mundo, vêem o céu, vêem as estrelas, vêem o sol: a alma não a podem ver, porque não chega lá a sua esfera.
73. Mas já que somos tão corporais e damos tanto crédito aos olhos, os mesmos olhos quero que nos digam e que confessem o que é a alma. Quereis ver o que é uma alma? Olhai, diz Santo Agostinho, para um corpo sem alma. Se aquele corpo era de um sábio, onde estão as ciências? Foram-se com a alma, porque eram suas. A retórica, a poesia, a filosofia, as matemáticas, a teologia, a jurisprudência, aquelas razões tão fortes, aqueles discursos tão deduzidos, aquelas sentenças tão vivas, aqueles pensamentos tão sublimes, aqueles escritos humanos e divinos que admiramos, e excedem a admiração, tudo isto era a alma. Se o corpo é de um artífice, quem fazia viver as tábuas e os mármores? Quem amolecia o ferro, quem derretia os bronzes, quem dava nova forma e novo ser à mesma natureza? Quem ensinou naquele corpo regras ao fogo, fecundidade à terra, caminhos ao mar, obediência aos ventos, e a unir as distâncias do universo, e meter todo o mundo venal em uma praça? A alma.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.