Por Gregório de Matos (1696)
1 Sem tom, nem som por detrás
espirra Águeda à janela,
mas foi espirro de trela,
porque tal estrondo faz:
que um Reverendo Sagaz
lastimado, do que ouvia,
se já não foi, que sentia
ouvia tal ronco ao traseiro,
disse para o companheiro,
"irra para tua Tia".
2 Sentiu-se Águeda do irra,
e disse, perdoe, Frade,
quem pede por caridade,
não se agasta com tal birra:
aqui nesta casa espirra
todo o coitado, e coitada;
passe avante, que isto é nada,
e se acaso se enfastia,
será para sua Tia,
ou para seu camarada.
3 Basta, que se escandaliza
do meu cu, porque se caga?
Venha cá, boca de praga,
que cousa mais mortaliza?
o peido, que penaliza,
é sorrateiro, e calado:
o peido há de ser falado,
ou ao menos estrondoso,
porque aquele, que é fanhoso,
é peido desconsolado.
4 Quantas vezes, Frei Remendo,
dará co meio do cu
peido tão rasgado, e cru,
que lhe fique o rabo ardendo?
perdoe, pois, Reverendo,
não cuidei, tão bem ouvia;
e se esmola me pedia,
aceite-o por caridade,
se não servir para um Frade,
leve-o para tua Tia.
PONDERA MISTERIOSO EM AMORES O DESCUIDO, COM QUE HUMA DAMA
CORTOU O SEU DEDINHO QUERENDO APARAR HUMA PENA PARA ESCREVER A
SEU AMANTE
1 Para escrever intentou
Nise uma pena aparar,
e começando a cortar,
o seu dedinho cortou:
incontinenti a largou
sentida desta ocasião,
e com tão justa razão
chorosa sente: porque
teve neste golpe pé,
para sentir-se da mão.
2 Duas penas descontente
padece Nise em verdade,
da ferida a crueldade,
e viver de Fábio ausente:
qual destas duas mais sente
difícil é de advertir;
mas eu venho a concluir,
que mais sente Nise amante
viver de Fábio distante,
do que chegar-se a ferir.
3 Quisera a Fábio escrever
por dar alívio a seu mal,
porém a sorte fatal
não lho consentiu fazer:
quis-lhe o gosto perverter,
dando-lhe o golpe, que a assusta,
por cuidar, que é cousa justa
mostrar, quando Nise chora,
que esse Fábio, a quem adora,
gotas de sangue lhe custa.
4 Bem claramente constou
de Nise na mão ferida,
que o ser liberdade, e vida
tudo a Fábio sujeitou:
discreta, e entendida andou
neste amoroso embaraço,
pois para apertar o laço
mais da sua sujeição,
que o firma nesta ocasião,
mostrou o sangue do braço.
5 Queixosa Nise em verdade
se mostrou nesta ocasião,
não da ferida da mão,
do golpe sim da saudade:
porque com tal crueldade
a move de Fábio a ausência,
que sem haver resistência
no peito, que amante o adora,
Lágrimas de sangue chora
com repetida veemência.
6 De propósito parece,
que se deu Nise este corte,
porque um amor, que é tão forte,
só bem assim se encarece:
e quem duvida, o fizesse
para dar-nos a entender,
que quis seu sangue verter
para mostrar sua fé,
que tanto ama a Fábio, que
quer dar-lhe o sangue a beber.
SONHO QUE TEVE COM HUMA DAMA ESTANDO PREZO NA CADEYA.
Adormeci ao som do meu tormento:
E logo vacilando a fantesia
Gozava mil portentos de alegria,
Que todos se tornaram sombra, e vento.
Sonhava, que gozava o pensamento
Com liberdade o bem, que mais queria,
Fortuna venturosa, claro dia;
Mas ai, que foi um vão contentamento!
Estava, Clóris minha, possuindo
Desse formoso gesto a vista pura,
Alegre glórias mil imaginando:
Mas acordoi, e tudo resumindo,
Achei dura prisão, pena segura:
Oh se sempre estivera assim sonhando!
A LUIZA ÇAPATA QUERENDO, QUE O AMIGO LHE DESSE QUATRO INVESTIDAS
DUAS DE DIA, E DUAS DE NOYTE.
1 Uma com outra são duas
pela minha tabuada,
e vós, Mulata esfaimada,
quereis duas vezes duas:
se isso vos dera por luas,
e o quiséreis cada mês,
dera-vos três vezes três;
mas quatro entre dia, e noite,
dar-vos-ei eu tanto açoite,
que farão dez vezes dez.
2 Pois, Puta, essa vossa crica
tão gulosa é de rescaldos,
que cuidais que os nossos caldos
os compramos na botica?
o caldo não multiplica,
quando entre quatro virilhas
se liquida em escumilhas,
e vós a lavadas mãos
quereis um caldo de grãos,
por um caldo de lentilhas?
3 É o caldo uma quinta-essência,
e tal, que uma gota fria
produz uma Senhoria,
e talvez uma Excelência:
se tendes dele carência,
e por fartar a vontade
o quereis em quantidade,
não trateis não de esgotar
os culhões de um secular,
ide à barguilha de um Frade.
4 Puta, se a vossa Ração
hão de ser quatro à porfia,
dormi com quatro em um dia,
e quatro se vos darão:
mas tirá-las de um Cristão,
que apenas janta, e não ceia,
e não dará foda, e meia,
isso é mais que crueldade,
e mais tendo vós um Frade,
que é gato que nunca mea.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.