Por Padre Antônio Vieira (1669)
Pôs os olhos Ezequiel no homem de fogo, pôs os olhos em Inácio, e viu-o primeiro que tudo cercado de perseguições; perseguido dos naturais, e perseguido dos estranhos; perseguido dos hereges, e perseguido dos católicos; perseguido dos viciosos, e perseguido dos espirituais; perseguido em si, e perseguido em seus filhos; perseguido na vida, e perseguido depois da morte; perseguido na terra, e até no céu perseguido. E como os olhos proféticos penetram todos os tempos, pareceu-lhe que aquele santo tão perseguido era S. Clemente, e escreveu um C. Torna a olhar, para se firmar mais no que via, e já a representação era outra Viu a Inácio em uma cova com uma cruz e uma caveira diante, lançado em terra, cingido de cilícios, chorando infinitas lágrimas, jejuando, vigiando, orando, disciplinando-se com cadeias de ferro, lutando fortemente contra as tentações, e ferindo os peitos nus com uma pedra dura: persuadiu-se Ezequiel que era S. Hierônimo, e já tinha escrito um H, quando Inácio, de repente transfigurado se lhe mostrou em nova aparência Era o santo naquele tempo tão leigo que não sabia mais que as letras do A. B. C., mas alumiado com um raio do céu, estava escrevendo um livro do mistério altíssimo da Santíssima Trindade, com a definição da essência, como número e unidade dos atributos, com a igualdade das pessoas, com a distinção das relações, com a propriedade das noções, com a ordem das emanações e processões divinas, e tudo com umas inteligências tão claras e tão profundas, que se resolveu o profeta que devia ser Santo Atanásio, que estava compondo o símbolo. Pôs um A, mas apenas tinha formado a letra, quando já Inácio estava outra vez transformado. Representava-se vestido em ornamentos sacerdotais, e comum Menino Jesus vivo nas mãos, caso que lhe sucedeu muitas vezes. Naquele passo da Missa, em que com maiores afetos de devoção havia de consumir a Sagrada Hóstia, corria o Senhor a cortina dos acidentes, e para se mostrar mais amoroso a seu servo, era em forma de menino. Como Ezequiel o viu revestido de sacerdote, com o Menino Jesus nas mãos, entendeu que era o santo Simeão, e escreveu um S. Porém, logo o desenganou o prodigioso original, porque já se tinha mudado em outra figura. Mostrava-se em hábito de soldado bizarro, Inácio trajado de galas e plumas; tinha junto a si um pobre mendigo; tirava o chapéu, tirava a capa, e, despojando-se das próprias roupas, cobria com elas o pobre soldado, e despindo-se a si para cobrir o pobre: Este é S. Martinho, diz o profeta. Formou um M, se bem já com receio de alguma nova transformação, e de que se lhe variasse outra vez o objeto; e assim foi. Estava Inácio arrebatado no ar, com os braços caídos, como rosto inflamado, com os olhos pregados no céu, acusando com suspiros a brevidade da noite, e dando queixas ao sol, de que havendo tão poucos momentos que lhe amanhecera no ocaso, já lhe anoitecia no oriente. persuadido o profeta que o grande Inácio era o grande Antônio, escreveu o segundo A. Mas o divino Proteu não se descuidava. Viu subitamente um incêndio que chegava da terra ao céu, e no meio dele, a Inácio abrasado em vivas chamas de fogo e zelo de amor de Deus, de fogo e zelo de amor do próximo. E ainda que Ezequiel, parecendo-lhe que seria S. Lourenço. formou um L, foram tantas as transfigurações, e tão diversas as figuras em que Inácio variou o rosto, o gesto, as ações, que acabaram de se desenganar os olhos do profeta, como se tinham desenganado os do pintor. Ali ficaram ambos os retratos suspensos e imperfeitos, e acabou de conhecer o céu e a terra que o retrato de Inácio se não podia reduzir a uma só figura, e que não podia ser copiado em uma só imagem, como os outros santos, quem era feito à semelhança de todos: Et vos similes hominibus.
§IV
Inácio, tomado por partes, tinha semelhantes; tomado no todo, não tinha semelhantes. O homem, compêndio universal de todas as criaturas, considerado por partes é semelhante a todas, mas considerado o homem todo não tem seme1hantes, como diz o Gênesis. Abraão, os patriarcas e Santo Inácio. O possesso livre do demônio com a invocação de Santo Inácio. A espada de Golias e o santo.
Temos visto a
Inácio semelhante a homem; resta ver a Inácio homem sem semelhante. Mas do
mesmo que temos dito nasce a dificuldade e a dúvida do que temos para dizer. Se
Inácio semelhante a tantos homens, como pode ser que Inácio fosse homem sem
semelhante? Se era tão semelhante a tantos, como não tinha nem teve semelhante?
Santo Tomás, dando a razão por que a Igreja aplica a muitos santos aquelas
mesmas palavras que o Eclesiástico disse de Abraão: Non est inventus similis
illi qui conservavit legem excelsi,9 diz que se verificam daquela graça ou
prerrogativa particular em que Deus costuma singularizar a cada um dos santos,
e fazê-lo respectivamente mais excelente que os outros. Mas esta razão não tem
lugar em Santo Inácio, porque já vimos que lhe deu Deus por exemplar a todos os
santos, e que ele foi semelhante não a um, senão a todos, imitando a cada um
naquela graça e perfeição em que foi mais excelente. Hugo cardeal, diz que se
hão de entender as palavras: Non est inventus similis illi, daquela idade em
que cada um dos santos floresceu; e assim vemos que tendo-se dado este elogio a
Abraão, se deu também a Jó: Quod non sit si'nilis ilii in terra,10 porque cada
um na sua idade foi singular e não teve semelhante. Mas também esta razão não
convém a Santo Inácio, porque os santos que Deus lhe propôs naquela crônica
universal, em cujo espelho ele compôs e retratou a sua vida, não foram os
santos particulares de uma só idade, senão os de todas as idades e de todos os
séculos. Pois se Santo Inácio foi semelhante a tantos, como pode ser que não
tivesse semelhante? Digo que muito facilmente, se distinguirmos as partes e o
todo. Tomado Santo Inácio por partes, era semelhante: todo Santo Inácio, não
tinha semelhante. Vede se o provo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.