Por Padre Antônio Vieira (1657)
Esta mesma diferença se acha na verdadeira luz e no verdadeiro sol, Cristo e sua mãe. Cristo é sol do mundo, mas sol que tem certo hemisfério, sol que tem seus antípodas, sol que quando nasce, nasce para alguns e não para todos. Assim o disse Deus por boca do profeta Malaquias: Orietur vobis timentibus nomem meum sol justitiae (Mal. 4,2): Nascerá o sol de justiça para vós, os que temeis o meu nome. – Fala o profeta não da graça da redenção, ou suficiente, que é universal para todos, senão da santificante e eficaz, de que muitos, por sua culpa, são excluídos, e por isso diz que o sol de justiça não nasce para todos, senão só para aqueles que o temem. Todo este mundo, tomado nesta consideração, se divide em dois hemisférios: um hemisfério dos que temem a Deus, outro hemisfério dos que o não temem. No hemisfério dos que temem a Deus, só nasce o sol da justiça, e só para eles há dia; só eles são alumiados. No hemisfério dos que não temem a Deus, nunca jamais amanhece o sol; sempre há perpétua noite, todos estão em trevas e às escuras. Neste sentido chamau o profeta a este sol, sol de justiça: Sol justitiae. O sol material, se bem se considera, é sol sem justiça, porque trata a todos pela mesma forma, e tanto amanhece para os bons como para os maus: Qui solem suum oriri facit super bonos et malos (Mt. 5,45). É possível que tanto sol há de haver para o bom, como para o mau? Para o cristão, como para o infiel? Para o que adora a Deus, como para o que adora o ídolo? Tanto há de amanhecer o sol para o diligente, como para o preguiçoso? Tanto para o que lhe abre a janela, como para o quelha fecha? Tanto para o lavrador que o espera, como para o ladrão que o aborrece? Notável injustiça do sol material! Não assim o Sol da Justiça, É Sol da Justiça porque trata a cada um conforme o que merece. Só para os bons amanhece, e para os maus esconde-se; só alumia aos que o temem, e aos que o não temem sempre os tem às escuras.
Parece coisa dificultosa que no mesmo hemisfério, na mesma cidade, e talvez na mesma casa estejam uns alumiados e outros às escuras; mas assim passa, e já isto se viu com os olhos no mundo algum dia. Uma das pragas do Egito foram as trevas. E descrevendo-as, o texto diz assim: Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti. Nemo vidit fratrem suum, nec movit se de loco in quo erat; ubicumque outem habitabant filii Israel, lux erat (Êx. 10,22 s): Houve em toda a terra do Egito umas trevas tão horríveis, que nenhum egípcio via ao outro, e nenhum se podia mover do lugar onde estava; mas onde habitavam as hebreus, no mesmo tempo havia luz. Brava maravilha! Em toda a terra do Egito havia umas casas que só eram habitadas de egípcios, outras que eram habitadas de hebreus e de egípcios juntamente. Nas que eram habitadas de egípcios, todos estavam em trevas; nas que eram habitadas de hebreus, todos estavam em luz; nas que eram habitadas de hebreus e de egípcios juntamente, os hebreus estavam alumiados, e as egípcios às escuras. Isto que fez no Egito a vara de Moisés, faz em todo mundo a vara do Sol de Justiça. Muitas casas há no mundo em que todos são pecadores; algumas casas haverá em que todos sejam justos; outras há, e é o mais ordinário, em que uns são justos e outros pecadores. E com toda esta diversidade de casas e de homens, executa a vara do Sol de Justiça o que a de Moisés no Egito. Na casa onde todos são justos, todos estão em luz; na casa onde todos são pecadores, todos estão em trevas; na casa onde há pecadores e justos, os justos estão alumiados e os pecadores às escuras. De sorte que o Sol de Justiça, nesta consideração em que falamos, é sol tão particular e tão parcial, que não só no mundo tem diferentes hemisférios, mas até na mesma casa tem antípodas.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.