Por Machado de Assis (1879)
A impetuosidade de Fernandinha era só nas coisas de pouca monta; tratando-se da maior questão da sua vida, Fernandinha fez-se acanhada e medrosa. Não mudou de todo, mas mudou bastante: deixou de ser a moça frívola de costume, para se tornar às vezes séria e meditativa. Notava-o Henriqueta, e logo que o notava, dizia-o; mas então ela voltava logo a ser o que era, e nenhuma suspeita penetrou no espírito da outra.
Julião manteve-se no terreno que escolhera — o de uma impassibilidade branda e amável. Tratava a moça com as atenções do princípio, sorria com ela, e acompanhava a nos recreios da família, mas nada mais. Às vezes Fernandinha deixava pousar nele uns olhos maviosos, que o rapaz não via, ou não entendia, e então a moça os recuava, e com eles um suspiro, que chegava à flor dos lábios, e voltava depois ao coração.
— Mas deveras, não gostará de mim? Dizia ela consigo, quando mais visível lhe parecia a indiferença de Julião.
Um dia, estando todos na chácara, Fernandinha parecia estouvada e alegre como nos seus melhores tempos. Julião disse-lhe, e ela respondeu que a razão era simples: esperava um namorado, um noivo. Ela estremeceu, mas dominou-se logo.
— Seu primo, não é? disse Henriqueta.
— Não sei, um noivo, repetiu a moça com um gesto nervoso e impaciente.
Julião encaminhou-se para o portão. Nesse momento chegava o carteiro com uma carta do Norte. Julião abriu-a e leu:
— Uma notícia, disse ele; daqui a quinze dias temos cá o Pimentel.
Dessa vez foi Henriqueta quem estremeceu, mas ninguém a viu, e o efeito passou.
IX
A chegada do Pimentel veio complicar a situação. Complicar não é a expressão exata; veio obscurecê-la ainda mais. Havia entre aquelas quatro pessoas um drama interior, que se desenrolava todo na consciência e no coração de cada um, sem nenhuma manifestação externa, sem contraste visível nem palpável, e, a certos respeitos, sem notícia recíproca. Tal era a dificuldade.
Henriqueta, sentiu uma extraordinária impressão ao saber da volta do Pimentel; mas se era principalmente de gosto, era também de medo, de enfado, de alguma coisa que ela mal chegava a entender; e ninguém lha descobriu. Ao contrário, graças à arte que possuía de se dominar, nem Fernandinha pôde perceber nenhuma mudança; aliás, Henriqueta não confiava à outra os seus mais recônditos pensamentos.
Poder-se-ia notar, isso sim, que Henriqueta se tornou durante aqueles quinze dias muito vigilante em relação à amiga; buscava as ocasiões de a ter em casa, iniciara alguns passatempos em que tomava parte o irmão; e até, quando era possível, deixava-os a sós. Fernandinha estimava esses lances sugeridos pela amiga; mas saía deles mais desanimada.
— Qual! Não me ama, pensava ela consigo. Bem diz mamãe que não gosta de homens matemáticos.
Henriqueta, pela sua parte, quando não tinha presente a outra, tinha-lhe o nome e repetia-o muita vez, espreitando no rosto de Julião, o sinal de uma comoção qualquer; mas o rosto dele era de mármore, — frio e duro — e Henriqueta perdia o tempo, e ficava como quem, além do tempo, perdesse as esperanças.
A chegada do Pimentel, vindo complicar a situação, foi também uma diversão nos primeiros dias. Julião foi vê-lo imediatamente; levou-o no dia seguinte a jantar. Henriqueta recebeu-o com muita afabilidade e nada mais. De véspera ensaiara-se a resistir à impressão do primeiro encontro, — um ensaio de imaginação que lhe não valeu de cousa nenhuma no dia seguinte. O que lhe valeu muito foi a presença do irmão; diante dele, Henriqueta venceu-se.
— Já não esperava por mim, aposto? disse Pimentel, apertando a mão da moça, que estava um pouco fria.
Este modo jovial deu-lhe forças; ela respondeu rindo que contava e muito; e acrescentou:
— Os senhores morrem pela Corte, não é assim?
— Também não digo que não, concordou ele; e posso afiançar-lhe que agora, se a Corte é a vida, viverei cem anos.
— Não vais mais? perguntou Julia.
— De visita; venho estabelecer-me aqui.
Pimentel estabeleceu-se efetivamente na Corte; mobiliou uma casa no Rio Comprido, meteu-se dentro; e as relações com a família de Julião prosseguiram como d'antes, e até um pouco mais freqüentes, se não mais íntimas. Esta situação pareceu mortificar Henriqueta e tornar-lhe quase importunas as visitas do Pimentel. Isto mesmo lhe notou Fernandinha.
— Que tem você contra este moço? perguntou-lhe um dia.
— Nada. Por quê?
— Parece que tem alguma coisa.
— Eu? disse Henriqueta rindo.
— Você, é verdade; noto que fica, às vezes, um pouco aborrecida quando ele está conosco. Será porque eu estou presente?
— Ora!
Fernandinha viu-a levantar os ombros com tão natural desdém, que acreditou na sinceridade da resposta.
— Se não é isso, continuou ela, é porque ele lhe pareceu aborrecido. Henriqueta hesitou um instante.
— Não digo que não, respondeu ela enfim.
E depois de um instante.
— O que me parece também é que você...
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um para o outro. A Estação, Rio de Janeiro, 30 jul. 1879 a 15 out. 1879.