Por Machado de Assis (1876)
— Alguém ma tirou, talvez, porque eu...
— Que faz a polícia?
— A polícia!... Está zombando comigo, creio eu.
— Apenas crê?
— Marianinha, por quem é, perdoe-me se...
Neste ponto teve Gustavo uma idéia que lhe pareceu luminosa.
— Falemos franco, disse ele; eu tenho a fita comigo.
— Sim? deixe ver.
— Não está aqui; mas posso afirmar-lhe que a tenho. Imponho todavia uma condição... Quero ter este prazer de impor uma condição...
— Impor?
— Pedir. Mostrar-lhe-ei a fita depois que estivermos casados.
A idéia, como a leitora vê, não era tão luminosa como ele pensava; Marianinha deu uma risadinha e levantou-se.
— Não acredita? disse Gustavo meio enfiado.
— Acredito, disse ela; e tanto que aceito a condição.
— Ah!
— Com a certeza de que não a há de cumprir.
— Juro...
— Não jure! A fita está aqui.
E Marianinha tirou da algibeira o pedaço de fita azul com os nomes de ambos bordados a seda, a mesma fita que ela lhe dera.
Se o bacharel Gustavo tivesse visto as torres de S. Francisco de Paula subitamente transformadas em duas muletas, não se admiraria tanto como quando a moça lhe mostrou o pedaço de fita azul.
Só no fim de dois minutos pôde falar:
— Mas... esta fita?
— Silêncio! disse Marianinha vendo entrar a avó.
A leitora naturalmente acredita que a fita fora entregue a Marianinha pela sobrinha do desembargador, e acredita a verdade. Eram amigas; sabiam do namoro uma da outra; Marianinha tinha mostrado à amiga a obra que fazia para dar ao namorado, de maneira que quando a fita azul caiu nas mãos da pequena suspeitou naturalmente que era a mesma, e obteve-a para mostrá-la à neta de D. Leonarda.
Gustavo não suspeitara nada disto; estava aturdido. Estava sobretudo envergonhado. Acabava ser apanhado em flagrante delito de peta e fora desmentido do mais formidável modo.
Nestas alturas não há de demorar o desfecho. Apresso-me a dizer que Gustavo saiu dali abatido, mas que no dia seguinte recebeu uma carta de Marianinha, em que lhe dizia, entre outras coisas, esta: “Perdôo-lhe tudo!”
Nesse mesmo dia foi pedida a moça. Casaram-se pouco depois e vivem felizes, não direi onde, para que os não vão perturbar na sua lua-de-mel que dura há largos meses.
Desejo o mesmo às leitoras.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.