Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Não se sabem ainda as razões detalhadas que levaram Sir Theophilus Storey a este passo extremo – mas parece que a dissolução da república era iminente: os bóeres tinham provocado uma guerra e recusavam-se a pagar os impostos para a sustentar: a república, sem meios, sem soldados, estava na véspera de uma invasão: todo o mundo bárbaro que a cerca, estava em armas: era de temer à primeira insurreição que houvesse no Sul de África um levantamento selvagem, em massa. Foi talvez para evitar este grave perigo – que Sir Theophilus Storey interveio. O território do Transval é grande como todo o reino de Itália e não tem mais de um milhão de habitantes. Parece que a anexação foi tranquila, além, naturalmente, dos protestos platónicos. Na acta de anexação o Transval é declarado estado livre, com toda a autonomia do governo local: as línguas holandesa e inglesa são consideradas igualmente oficiais: certos impostos são abolidos – e parece que o sentimento pacífico é tão grande que não foi necessária ainda a presença de tropas inglesas. É mais um grosso bocado do globo que entra para a vastidão da Inglaterra! Por esta ocasião alguns jornais têm falado de Lourenço Marques.

Pintam-no como um país fértil, rico, de grande futuro, em plena anarquia: funcionários, instituições, edifícios, serviços públicos, actividade local – tudo é descrito como num estado desolador de dissolução e de inércia. O Pall Mall, jornal do governo, tem insistido nestes detalhes.

De resto não é raro encontrarmos nos jornais ingleses estas pinturas falsamente carregadas de civilização portuguesa na África: e têm elas tomado um tal carácter de exageração injusta que ingleses estabelecidos na África têm julgado do seu dever estabelecer a justa verdade, e ultimamente nos jornais do Cabo encontravam-se apreciações extremamente favoráveis sobre o funcionalismo português em África – apresentando-o como ilustrado, de vistas liberais e de uma grande benevolência.

As novidades literárias são escassas. Relêem-se os livros velhos – sobretudo os que dizem respeito ao Oriente, à Turquia e à Rússia: em todas as lojas de livros se vêem edições recentes do Alcorão traduzido; e, como a Turquia é preocupação do momento, as revistas literárias dedicam artigos sólidos, laboriosamente compilados pelo método inglês, à literatura e poesia turcas.

Tem-se lido muito, todavia, o novo livro do deputado Jeckins, autor de Xinx’s Baby; este novo romance ou panfleto romantizado chama-se Devil’s Chain («Cadeia do Diabo») e tem-se vendido em pouco tempo vinte mil exemplares! É uma pintura violenta, colérica, da embriaguez em Inglaterra: este grande vício nacional, e as suas fatalidades, está contado em episódios lúgubres, num estilo concentrado e nervoso, a largos traços, de um modo impressionador: vêem-se todas as classes, todos os caracteres, todas as idades, virgens, mães, sacerdotes, operários, juizes, lordes, ministros de Estado, a Inglaterra inteira, arrastada pelo brande, pelo gim, pela aguardente, à perdição, ao vício, à miséria, à desonra, ao crime, à morte! E um pais todo que rola para o abismo, cambaleando de bêbedo. É a grande Cadeia do Diabo! Satanás prende-os uns aos outros por um vício comum – o álcool – e, a grandes vergastadas, vai-os atirando para o inferno.

E, no meio desta catástrofe, um só homem prospera, engorda, sorri e triunfa – o destilador, o preparador do álcool, o dono das mil tabernas. Mas lá lhe vem o seu castigo: o único filho, o único herdeiro, de copo de aguardente em copo de gim, vem a morrer, miserável, num quarto de acaso, vagamente cumpliciado num crime!

O livro perde pela sua exageração bíblica. Tratado com mais realidade, causaria mais convicção.

A season vai monótona. Janta-se pouco, recebe-se pouco, dança-se pouco. O tempo tem estado áspero. A grande attraction é naturalmente a exposição anual de pinturas. Não se pode ver em detalhe, porque nestes primeiros tempos a multidão toma às vezes as proporções confusas de uma bernarda.

Empurra-se, escorrega-se, pisa-se, vai-se, é-se levado – e vêem-se de longe, nas paredes, as cores reluzir vagamente e os dourados dos caixilhos cintilar: mais nada.

A primeira impressão, porém, é que a exposição é medíocre: milhares de quadros, imenso talento despendido, uma extraordinária habilidade de execução – mas nenhuma obra que faça pensar.

Os assuntos não têm ideia: são motivos, pretextos para correr: basta dizer que os dois grandes pintores de Inglaterra, Leighton e Millais – um expõe uma «menina vendo-se a um espelho», o outro «um veterano»! E o que estes dois grandes artistas têm a dizer este ano! Quando a gente, no colégio, aprende aguarela, copia assuntos com mais ideia e mais intenção.

Os concertos wagnerianos têm tido um sucesso. São compostos das principais partes das óperas de Wagner, sobretudo da sua última trilogia heróica, Os Nibelungos: muitos dos cantores que executaram a ópera em Bayreuth vieram a Londres – entre eles Madame Madonna, a prima-dona do maestro, a favorita, a sua grande interpretadora.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →