Por Eça de Queirós (1900)
E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo Bardo, duas tiras, quando uma desavença com o seu caseiro. o Manuel Relho. que amanhava a quinta por oitocentos mil réis de renda, veio perturbar. na fresca e noviça inspiração do seu trabalho, o Fidalgo da Torre. Desde o Natal o Relho, que durante anos de compostura e ordem se emborrachava sempre aos domingos com alegria e com pachorra, começara a tomar, três e quatro vezes por semana, bebedeiras desabridas, escandalosas, em que espancava a mulher, atroava a quinta de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado, de varapau, desafiando a quieta aldeia. Por fim, uma noite em que Gonçalo, à banca, depois do chá, laboriosamente escavava os fossos do Paço de Santa Irenéia - de repente a Rosa cozinheira rompeu a gritar: "Aqui d'El-Rei contra o Relho!" E, através dos seus brados e dos latidos dos cães, uma pedra, depois outra, bateram na varanda venerável da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes Ramires pensou no revólver... Mas justamente nessa tarde o criado, o Bento, descera aquela sua velha e única arma à cozinha para a desenferrujar e arear! Então, atarantado, correu ao quarto, que fechou à chave, empurrando contra a porta a cômoda com tão desesperada ansiedade que frascos de cristal, um cofre de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e se partiram. Depois gritos e latidos findaram no pátio - mas Gonçalo não se arredou nessa noite daquele refúgio bem defendido, fumando cigarros, ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto perdoara, sempre tão afavelmente tratara, e que apedrejava as vidraças da Torre! Cedo, de manhã convocou o Regedor; a Rosa, ainda trêmula, mostrou no braço as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo arrendamento findava em outubro, foi despedido da quinta com a mulher, a arca e o catre. Imediatamente apareceu um lavrador dos Bravais, o José Casco, respeitado em toda a freguesia pela sua seriedade e força espantosa, propondo ao Fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo Mendes Ramires, porém, já desde a morte do pai, decidira elevar a renda a novecentos e cinqüenta mil réis: - e o Casco desceu as escadas, de cabeça descaída. Voltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a quinta, esfarelou a terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a adega, contou as oliveiras e as cepas: e num esforço, em que lhe arfaram todas as costelas, ofereceu novecentos e dez mil réis! Gonçalo não cedia, certo da sua equidade. O José Casco voltou ainda com a mulher; depois, num domingo, com a mulher e um compadre - e era um coçar lento do queixo rapado, umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquela manhã de junho intoleravelmente longa ao Fidalgo, sentado num banco de pedra do jardim, debaixo duma mimosa, com a Gazeta do Porto. Quando o Casco, pálido, lhe veio oferecer novecentos e trinta mil réis - Gonçalo Mendes Ramires arremessou o jornal, declarou que ia ele, por sua conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era um torrão rico, tratado pelo saber moderno, com fosfato, com máquinas! O homem de Bravais, então, arrancou um fundo suspiro, aceitou os novecentos e cinqüenta mil réis. À maneira antiga o Fidalgo apertou a mão ao lavrador - que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de vinho, esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o suor ansiado que o alagava.
Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de Gonçalo estancou - não foi mais que um fio arrastado e turvo. Quando nessa tarde se acomodou à banca, para contar a sala de armas do Paço de Santa Irenéia por uma noite de lua - só conseguiu converter servilmente numa prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem relevo que os modernizasse, desse majestade senhorial ou beleza saudosa àqueles maciços muros, onde o luar, deslizando através das reixas, salpicava centelhas pelas pontas das lanças altas, e pela cimeira dos morriões... E desde as quatro horas, no calor e silêncio do domingo de junho, labutava. empurrando a pena como lento arado em chão pedregoso, riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante e mole, ora num rebuliço, a sacudir e reenfiar sob a mesa os chinelos de marroquim, ora imóvel e abandonado à esterilidade que o travava, cornos olhos esquecidos na Torre, na sua dificílima Torre, negra entre os limoeiros e o azul, toda envolta no piar e esvoaçar das andorinhas.
Por fim, descorçoado. arrojou a pena que tão desastrosarnente emperrara. E fechando na gaveta, com uma pancada, o volume precioso do Bordo:
- Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois aquele animal do Casco, toda amanhã!...
Ainda releu, coçando sombriamente a nuca. a derradeira linha rabiscada e suja:
- "... Na sala altaneira e larga, onde os largos e pálidos raios da lua..." Larga, largos!... E ospálidos raios, os eternos pálidos raios!... Também este maldito castelo, tão complicado!... E este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão antigo!... Enfim, um horror!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.