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#Contos#Literatura Portuguesa

Coisas Que Só Eu Sei

Por Camilo Castelo Branco (1889)

Carlos, ao ver que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto irritara a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e até com ressentimento, pela realidade de uma esperança, que fizera a sua felicidade de algumas horas.

— “Eu não me arrependo” — disse ele — “de ter sido a voluntária testemunha de teus desforços… Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses uma mulher licenciosa e depravada, não me arrependeria… Ouvi-te, iludi-me na esperança vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o escolhido para sentir de perto as pulsações vertiginosas do teu coração… Estou recompensado de mais… Ainda assim, Henriqueta, eu não tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessandote um desejo de conhecer-te que não posso iludir… Este desejo vais-mo tu convertendo numa dor; e será logo uma saudade insuportável, que te faria compaixão se soubesses avaliar o que é na minha alma um desejo impossível. Se tu mo não dizes, que me dirá o teu nome ?”

— “Não sabes que sou Henriqueta ?”

— “Que importa ? E serás-tu Henriqueta ?”

— “Sou… Juro-te que sou…”

— “Não basta isto… Ora diz-me… Não sentes a precisão de ser-me grata ?”

— “A quê, meu cavalheiro ?”

— “Grata ao melindre com que te tenho tratado, grata à delicadeza com que te peço uma revelação da tua vida, e grata a este impulso invencível que me manda ajoelhar-te… Será nobre zombar de um amor que involuntariamente fizeste nascer?”

— “Não te iludas, Carlos” — replicou Henriqueta num tom de seriedade, semelhante ao de uma mãe que aconselha seu filho. “O amor não é isso que pica a tua curiosidade. As mulheres são fáceis de transigir de boa fé com a mentira, e, pobres mulheres!… Sucumbem muitas vezes à eloquência artificiosa de um conquistador. Os homens, fartos de estudarem as paixões na sua origem, e enfadados das rápidas ilusões que eles choram todos os dias, estão prontos sempre a declararem-se afetados de cólera-paixão, e nunca apresentam carta limpa de cépticos. De maneira que o sexo frágil das quimeras sois vós, criancinhas de toda a vida, que brincais aos trinta anos com a mulher como aos seis brincáveis com os cavalinhos de pau, e os fradinhos de sabugo ! Olha, Carlos, eu não sou ingrata… Vou-me despedir de ti, mas hei-de conversar contigo ainda. Não instes ; abandonate à minha generosidade, e verás que alguma coisa lucraste em me encontrar e em me não conhecer. Adeus.

Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos numa espécie de idiotismo, quando a viu desaparecer à saída do teatro. O seu primeiro pensamento foi segui-la ; mas a prudência lembrou-lhe que era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa até roubar alguma revelação àquela Sofia da primeira ordem ou à Laura da segunda. Não lhe lembraram recursos, nem eu sei quais eles poderiam ser. Laura e Sofia, para dissiparem completamente a esperança ansiosa de Carlos, tinham-se retirado. Era necessário esperar, era necessário confiar naquela mulher extraordinária, cujas promessas o alvoroçado poeta traduzia em mil versões.

Carlos retirou-se, e esqueceu não sei quantas mulheres, que ainda, na noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e escreveu as reminiscências vivas da cena, quase fabulosa, que lhe transtornava o plano de vida.

Não houve nunca um coração tão ambicioso de futuro, tão fervente de poesia, e tão fantástico de conjecturas ! Carlos adorava seriamente aquela mulher ! Como estas adorações se afervoram com tão pouco, não sei eu : mas que o amor é assim, vou eu jurá-lo, e espero que os meus amigos me não deixem mentir.

Imaginem, portanto, a inquietação daquele grande espiritualista, quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais ligeiro indício lhe viesse confirmar a existência de Henriqueta ! Não direi que o desesperado amante apelou para o supremo tribunal das paixões impossíveis. O suicídio não lhe passou nunca pela imaginação ; e muito sinto que esta verdade diminua as simpatias que o meu herói poderia granjear. A verdade, porém, é que o apaixonado mancebo vivia sombrio, isolava-se contra os seus hábitos socialmente galhofeiros, abominava as impertinências de sua mãe que o consolava com anedotas trágicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, enfim, sofrera a ponta tal que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias, a fatídica mulher continuasse a ludibriar a sua esperança.

Diga-se, porém, em honra e louvor da astúcia humana : Carlos, resolvido a partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do Nacional, dissesse, por exemplo, o seguinte :

“O Sr. Carlos de Almeida vai, no próximo paquete, para Inglaterra. S. Sa tenciona observar de perto a civilização das primeiras capitais da Europa. O Sr. Carlos de Almeida é uma inteligência, que, enriquecida pela instrução prática da sua visita aos focos da civilização, há-de voltar à sua pátria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os ramos das ciências humanas. Fazemos votos por que

(continua...)

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