Por Camilo Castelo Branco (1862)
- O senhor não vá contar isso a ninguém, senão arrisca-se a dar mote para uma farsa, e lembre-se que o personagem mais ridículo dela será o Sr. Silvestre da Silva, com cuja candura eu simpatizo. Quer o senhor namorar uma das minhas cunhadas, se não está disposto a continuar o namoro com minha mulher? Olhe que ambas têm nomes inspiradores: uma é Berta, a outra é Laura. Escolha, que eu coadjuvo-o.
Creiam que estava corrido, e dei graças a Deus quando se aproximaram da nossa mesa três sujeitos conhecidos do empregado. Assim foi interrompida a conversação, em que a minha pobre vaidade estava sofrendo como em potro de escárnio. Ergui-me, despedi-me, apertei a mão ao marido de Clotilde, e fui rasgar as prosas e versos que escrevera numa brochura ad ho cenfeixado tudo sob o seguinte título: A Ti!... E mais nada, a tal respeito .
IV
Ainda agora me não entendo bem, se penso na frieza do meu coração às escaramuças que a dona do ho-
tel lhe fazia!
Era a Sra. D. Martinha uma viúva de trinta e cinco anos, pequena, entroncada; mas bem feita e ágil. De seu tinha pouco cabelo; porém, com o abençoado capital que empregara em marrafas tecia um trançado tão abundante, principalmente ao domingo, que nunca a arte dos Canovas fez cabeça mais magnífica em adornos que a da Sra. D. Martinha.
Eu bem a vi desfazer-se em atenções comigo, dando-me o melhor quarto, a melhor manteiga, e o café, depois do jantar, fora do ajuste; mas os olhos do meu coração andavam desvairados em contemplações de mais poéticas provas de amor, e não podiam baixar ao devido apreço da boa manteiga e do café de Cabo Verde, como amorosos mimos e demonstração de ternura.
Aos Domingos, a Sra. D. Martinha honrava os hóspedes ao jantar com a sua presença. Eram banquetes estes jantares, obrigados a vinho de Setúbal, presente semanal dum tio da senhora, sujeito de sessenta anos, que remoçava aos vinte, naqueles dias em que ele era certo à mesa.
A jovial dama erguia-se sempre escarlate até às orelhas e lançava-se a um tão voluptuariamente alquebrada, que seria muito para amar-se, se a hipótese consentisse que ela tivesse dentro do seio tanto coração como vinho de Setúbal. Vi-a dançar a jota com requebros de escandecente despejo; não era menos lúbrica no lundum chorado; e, não sei se de experiência, se de instinto, saracoteava-se tão peneirada nas evoluções do fado, que eu estava pasmado do que via.
Convidava eu amigos a jantarem comigo aos domingos, prevenindo-os para gozarem as delícias gratuitas daquela dama, transfigurada em bacante, posto que as antigas bacantes não o eram sem a condição da virgindade, e neste ponto, de modo algum quero ultrajá-la com a comparação. Os meus amigos, já apodrentados de coração, encaravam na desenvolta Martinha com olhos cobiçosos, e, a seu pesar, confessavam que o amado era eu, e unicamente eu. Maus conselheiros excitaram-me a cismar nos encantos, que eles viam, e - com pejo o digo - descobri que a mulher tinha reduzido a pântano uma parte do meu coração para retouçar-se nele.
Amei-a; e ela, sem lho eu dizer, conheceu-o logo. Expôs-me ardentemente as suas raivas e ciúmes, quando me via namorar as vizinhas; e confessou que tivera o satânico pensamento de envenenar Catarina, quando eu a amava, e era amado, tendo ela depositado no coração da desleal amiga o seu segredo.
Os dias corriam plácidos e felizes para nós, quando D. Martinha tomou uma criada, que era mulata.
Mas que anjo das estuosas zonas onde a pele está calcinada, como devem está-lo as fibras do coração! Que mulata!, que inferno de devorante lascívia ela tinha nos olhos! Que tentação, que doidice me tomou de assalto apenas a vi em roda do meu leito, fazendo a cama! O menor trejeito era uma provocação; o frêmito das saias era um choque da pilha galvânica! Ó minha virtude pudibunda! Estavas estragada por D. Martinha!
Amei a mulata, com todo o ardor do meu sangue e dos meus vinte anos! Pedi-lhe amor, como se pede a um Serafim de neve e rosas, a quem a gente ajoelha e ora de longe, com medo de os desmanchar com o bafo. Quando a exorava, parece que os nervos me retorciam os músculos; e os músculos se contraíam em espasmos de luciferina delícia! Lembra-me que me ajoelhei a seus pés um dia, beijando-lhe as mãos, que perfumavam o aroma de cebola do refogado. Melhor me lembra ainda que me ergui de seus pés vitorioso, e feliz como nunca um réu perdoado se ergueu dos pés de rainha do Congo!
Perguntai às aves do céu, e às alimárias dos pedregais africanos, como se amam!
O meu amor tinha da ave a meiguice e do tigre a insaciável sofreguidão.
A mulata sabia que eu tinha amado a ama e era ainda perseguido por ela. Disse-lhe eu que a tolerava por compaixão do seu aferrado afecto. Riu-se a mulata e disse: “Uma vez hei de mostrar-lhe a Sra. D. Martinha no momento em que ela for mais digna da sua compaixão.”
Ainda lhes não tinha dito que a folha do Brasil era extremamente engraçada, esperta e maliciosa. Aquelas poucas palavras bastam a defini-la.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.