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#Romances#Literatura Portuguesa

Uma praga rogada nas escadarias da forca

Por Camilo Castelo Branco (1883)

- Eu venho pedir o seu perdão à beira do patíbulo. Fui eu que o arrastei até o tribunal em que foi condenado; mas não sou eu que o arrasto aqui. Bradei em favor da sua inocência. Pedi, há momentos, a suspensão dêste ato, em que minha dor será mais... muito mais prolongada que a sua. Não me ouviram: impuseram-me silêncio, e mandaram-me sair do santuário da lei, que resfolegava sangue pela bôca do seu sacerdote.

"Venho pedir o seu perdão, nas escadas da fôrca, e vazar o fel, que me devora a consciência, na consciên-

cia do juiz implacável que pede a sua cabeça a altos gritos!"

Ouviu-se um prolongado murmúrio. Era a onda popular que refervia sopesada entre as rochas da sua impotência moral, naqueles dias, em que o sangue dum plebeu continuava a operação regeneradora do sangue de Jesus Cristo.

Bernardo ouviu com presença de espírito a exclamação de Pedro Leite.

- Eu lhe perdôo!

Foram as suas palavras únicas.

Choraram-se então muitas lágrimas. A piedade teve uma explosão, que as coronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado para arrancarem da morte um santo. Êste conflito foi serenado por outro mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobressaía entre os males populares. Era o velho, protetor único de Bernardo da Silva, durante a sua prisão. Poucos o conheciam.

- Nobre Senhor Francisco de Lucena! Vem ver teu filho que morre enforcado! Nobre Senhor Francisco de Lucena! Vem ver o filho da mulher que desonraste, como é nobre nas escadas da fôrca! Nobre Senhor Francisco de Lucena! Vem ver teu filho, o filho de minha filha, que borrifa os teus pergaminhos com o seu sangue ilustre!

E calou-se. Calaram-se todos. E aquêle homem lá estava erguido como o anjo dos túmulos à espera que Deus mande quebrar a lousa duma mulher que há falta nesse transe aflitivo!

Essa mulher morrera, desonrada, sufocada pela mão da ignomínia, a que a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonara.

Êsse ancião era o pai dessa mulher, único que recebera em que seus braços o filho da desonra, único sabedor daquela existência, que acompanhou sempre, porque lhe marcara um braço com uma cruz. Desde o ventre à fôrca, de longe, desconhecido, com o segrêdo da desonra de sua filha abafado no coração, êste homem seguira os vestígios do neto, sem declará-lo nunca, porque um apelido ilustre não o salvava a êle duma ilustre ignomínia.

Que impressão fêz êste homem nas turbas! A do espanto. Mas, momentos depois, chamavam-lhe DOIDO. Por ordem do juiz de fora ia ser prêso o demente. Aproximou-se a justiça d'el-rei. "É doido...! dizia o meirinho ao lançarlhe a mão.

- XV -

Há de consumar-se aquêle enrêdo de peripécias terríveis.

Bernardo pôs o pé direito na última prancha da fôrca. Voltou-se para o povo. Brilhou-lhe à face o clarão dum outro mundo. A sua voz era melodiosa como o cântico do anjo da morte suavíssima: mas naquele todo via-se a terrível majestade do anjo do dia final. As suas últimas palavras foram estas:

- Ouvi a praga dum padecente, rogada nas escadarias da fôrca: QUE A JUSTIÇA DE DEUS SE CUMPRA NA PRESENÇA DOS HOMENS!

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- CONCLUSÃO -

Passaram-se quinze dias.

Eulália de Lucena recuperara o juízo, e entrara no mosteiro. Um ano depois, professara. A sua vida foram três anos de adoração extática. Ouviram-na murmurar palavras celestes, como em diálogo. Dizia-se que um anjo devia de aparecer-lhe naqueles arroubamentos. Chamavam-lhe santa, e adoraram-na morta.

Passados quatro anos, Francisco de Lucena, sempre afastado de sua filha pela mão do remorso, morreu de repente no mesmo local em que fôra hasteada a fôrca.

Simão Botelho, filho de Paulo Botelho, dera um tiro em seu pai. O pai quis sentenciá-lo: deu-lhe sentença de fôrca, que depois foi comutada em degrêdo perpétuo. Apenas desembarcou em Cabo Verde, abriu-se-lhe uma sepultura.

Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez anos depois, morria à vigésima quinta punhalada, que recebera, por não dar exatas informações dum pecúlio de cinqüenta mil cruzados, que guardava em uma quinta nas vizinhanças de Vila Real.

A mulher de Paulo Botelho morria doida no hospital de S. José um ano depois.

Restavam três filhas de Paulo Botelho.

Foram devassas até ao escândalo de serem arrastadas a um recolhimento por expresso mandado régio.

Uma apareceu morta num aqueduto por onde procurava evadir-se.

Outra casou com um homem que a retalhou de martírios.

A terceira enforcou-se no batente de uma porta.

A JUSTIÇA DE DEUS CUMPRIU-SE NA PRESENÇA DOS HOMENS.

A praga do justiçado nas escadas da fôrca teve o seu complemento no gênero de morte que a última pessoa daquela família se dera.

Fôrca por fôrca.

(continua...)

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