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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O menino saiu aos saltos de cegonha e Afonso ajuntou:

- Minha mulher é um anjo, cujas asas brancas se não mancham na felugem da cozinha. Eu gosto que ela por lá se entretenha, senão bate-me nestes brejeiros, que, como vês, são digníssimos de grossa pancadaria; mas eu amo estes diabinhos, que zombam de mim, e aturo-os, porque a dizer-te a verdade já me dói a cabeça quando não ouço esta algazarra. E tu, gostas de rapazes?

- Gosto muito, acho multo galantes os teus meninos; mas, se me dás licença, dir-teei que, em doenças de enxaqueca, o teu remédio não seria tão eficaz nas minhas como nas tuas. - Bem sei - atalhou Afonso. - Falta-te cabeça de progenitor, falta-te ouvido de pai que converte em música no coração esses berreiros, que nem no Inferno se poderiam receber como orquestra.

Não se fez esperar a esposa de Afonso.

Era uma senhora para não se descrever em romances e para admirar-se entre seus filhos.

É muito difícil e requer engenho grande tirar as semelhanças de uma mulher que se apresenta simples, modesta e, logo à primeira vista, imprópria de novela.

- Aqui está, e te apresento minha mulher-disse Afonso; e tomou-lhe dos braços a criança mais nova, que lhe saltara ao pescoço apenas a vira entrar na sala.

A esposa de Afonso de Teive respondeu acanhadamente ao meu palavroso cumprimento e tomou nos braços outro filho, que marinhava pelas costas da cadeira e mostrava a cabeça sobre o alto espaldar de couro.

Como se não ajeitava outra espécie de conversação, falei nos meninos, gabandolhes a formosura e a esperteza. Afonso, que parecia não querer outra coisa, começou a contar-me anedotas das suas crianças entusiasticamente, algumas medianamente engraçadas e outras que eu não pude ouvir, à conta da bulha que os pequenos faziam em volta da mãe. No entanto, fiz reparo nela.

A senhora teria trinta e oito anos e formosura, por força natural, já decadente.

Trajava roupas largas, talhadas sem esmero, de droga ordinária; a beleza das formas corporais denunciava-se, apesar do trajo descuidado. Semblante assinalado de tanta doçura e bondade não sei que o haja. Poderia chamar-se tristeza de santa àquele mavioso rosto pálido, quebrantado, e não sei quê de cismador; a expressão, porém, dos olhos brandos, do sorriso quase imperceptível, do colo um pouco inclinado em postura humilde, era nela a alegria exuberante de santa, sim, mas santa como esposa, santa como mãe, santidade de coração e alma repartidos entre Deus, esposo e filhos.

Pouquíssimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve connosco. Conheci-lhe a inquietação cuidadosa no relancear de olhos ao marido.

- Bem sei - disse ele. - Vai, vai, que estás a pensar nas rabanadas e nos mexidos.

E ela, sorrindo, disse:

- Ainda me não apresentaste ao teu amigo como uma sofrível intérprete da arte de cozinha.

- Intérprete! - exclamou ele. - Tu és mais! Tu inventaste a ciência da cozinha, que ê muito mais sublime que arte. A tua modéstia é que te não deixa vir à luz do mundo, deste mundo cujas aspirações confinem todas para a gastronomia, com um tratado que, ao mesmo tempo, me desse orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a qual te faltaria espaço e remanso para as tuas especulações, em resultado do que vamos hoje cear as mais ambrosíacas rabanadas que ainda os deuses coaram em suas celestiais gargantas. A aldeia, meu bom amigo - continuou Afonso voltando-se para mim com solene e galhofeira seriedade-, a aldeia dispensa ao espírito investigador um curso completo de ciências. A poesia do estômago, esta mais que todas poesia humanitária, não se dá nas cidades; lá come-se materialmente, aqui dá-se ao espírito a presidência em todas as matérias assimiláveis. Estou com o nosso admirável.

Castilho nestas memorandas palavras: "Longe de mim negar puerilmente às cidades suas vantagens sociais; digo só que para a poesia se não fizeram elas; e que, se nessa frágua algum engenho poético resiste, se aí canta, nunca há-de ser tanto, nem tão bom, nem tão inocente, nem tão perfumado, como seria sem dúvida nos campos." E a poesia que é? -acudiu Afonso cortando-me o riso com que eu celebrava o desconchavo da citação-, o que é a poesia senão aquele estado diáfano e sublimado da alma, que se está engolfando e gozando num invólucro sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exalação crassa de um estômago derrancado, azedo e entumecido? Pois hás-de tu saber que um estômago limpo é a fonte de todo o saber; e que a ciência construtora dos selectos alimentos do sangue é a que mais de perto se relaciona e ata com a arte de exprimir cadentemente os afectos da alma. Logo.

A esposa tinha saído quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com ameaças de longo fôlego.

(continua...)

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