Por Machado de Assis (1893)
Meteu-se no aposento de solteiro, agora de viúvo, sempre de solitário. Nada alterou a casa, em cima, onde almoçava e jantava. Fez no ano seguinte outra viagem à Europa, muito mais alegre, como um pássaro livre. Gostava da lufa-lufa de estradas de ferro, de hotéis, de teatros, de revistas militares, bulevards; foi à França, foi à Inglaterra, à Alemanha, e voltou o mesmo velho petimetre. Vinte e quatro horas depois de chegado, estava no cemitério, visitando a sepultura da mulher. Deu-lhe um mausoléu rico e belo, obra de um escultor italiano, e continuou a visitá-la naquele palácio último. Os empregados do cemitério já o conheciam.
— É o viúvo da D. Raquel, diziam eles pelo epitáfio. Se todos fossem como este! Não podiam crer, nem eu digo isto, que ele amasse mais a mulher morta que viva; é falso. O que se pode admitir é que ele sentia antes a perda da mulher que do casamento.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um quarto de século. A Estação, Rio de Janeiro, 15 ago. 1893.