Por Machado de Assis (1877)
— Quem quer que seja, meus direitos são anteriores aos dele, porque esse com certeza não te deu nunca provas de amizade, pelo menos do quilate das que te dei. Seixas, levantou os ombros segunda vez, com tal expressão, que não havia duvidar. José Marques ficou abatido. Murmurou um queixume, que o outro ouviu assobiando, e despediu-se.
— Um homem a quem dei o pão! dizia ele ao entrar em sua casa.
No dia seguinte recebeu uma carta atenciosa e quase amigável de Seixas, pedindo-lhe desculpa de não poder consentir no que ele pedida, pelo motivo já exposto, acrescendo que Elvira não aceitara o casamento com ele; protestavam, no entanto, a sua eterna amizade, esperando que o incidente não romperia as relações que entre ambos existiam. A carta era inspirada pela mulher de Seixas que não desejava magoar o pobre velho. José Marques leu-a e enterneceu-se. Escreveu logo uma resposta longa e amistosa; mas resolveu afastar-se da casa de Seixas durante algum tempo.
Sabendo, dois meses depois, que Elvira ia casar, sentiu-se picado de despeito, e abriu-se com alguns amigos censurando o casamento, e dizendo que alguém podia haver com direitos mais sólidos e antigos que os do guarda-livros.
Logo que Elvira casou, volveu ele a freqüentar a casa de Seixas, onde jantava freqüentemente e passava a maior parte do dia. Seixas já mal podia tolerá-lo. Os meses passaram, depois os anos; a velhice foi tornando José Marques pouco andarilho. A casa de Seixas era já a sua habitação usual. Ninguém o via comer em outra parte.
— Não tenho filhos nem mulher, dizia ele; vocês serão a minha família. Seixas não respondia nada.
— Sabes que mais? disse José Marques um dia; estou com minhas cócegas de vir morar para aqui.
— A casa é pequena.
— Qual! Eu acomodo-me bem num canto. Podia ir morar com outro; mas, confesso, ninguém me merece tanto como tu, nem há amigo com quem eu possa falar com esta liberdade que uso contigo... Eu considero-te, por assim dizer, uma obra minha; e estou certo de que não és mais amigo de outro. Sei que és grato, que não te esqueces nunca um benefício.
Foi morar com a família de Seixas. O que este sentia não era já aborrecimento, era ódio. Deu-lhe um quarto escuro, em um recanto da casa, onde José Marques se acomodou. Seixas recebia em casa alguns amigos, que ali iam jogar o voltarete ou palestrar. Se faltava um parceiro, José Marques era convidado a supri-lo, mas nada mais. Nem por isso lhe dava o melhor lugar à mesa do chá, onde ninguém fazia caso dele. José Marques, entretanto, não se fartava de elogiá-lo como homem grato, a quem ele matara a fome e salvara da morte.
— É um benefício de que nunca me hei de esquecer, acrescentava ele. Um dia adoeceu, mas tão infelizmente que já não tinha nada do que possuíra, em conseqüência do incêndio de duas casas, da morte de alguns escravos e da falência da companhia de que ele tinha duzentas ações. Acrescentou a esta desgraça, estar Seixas preparado para uma viagem à Europa. José Marques foi para o hospital de sua ordem, onde faleceu. Seixas, que ainda não havia embarcado, mandou dizer uma missa, não sei se pelo repouso do defunto, se em ação de graças. O coração não falou, mas pensou isto:
— Morreu um dos homens mais insuportáveis que tenho conhecido. A terra lhe seja leve!
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.