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#Comédias#Literatura Brasileira

Tu só, tu, puro amor

Por Machado de Assis (1994)

CENA XII

D FRANCISCA DE ARAGÃO, D. ANTÔNIO DE LIMA, depois D. MANUEL DE PORTUGAL

D. FRA. (depois de um instante de reflexão). Talvez chegue cedo demais. (Dá um passo para a porta da esquerda) Não; melhor é que lhe fale... mas, se se aventa a notícia? Meu Deus, não sei... não sei... Ouço passos... (Entra D. ANTÔNIO DE LIMA) Ah! D. ANT. Que foi?

D. FRA. Nada, nada... não sabia quem era. Sois vós... (Risonha) Chegaram galeões da Ásia; boas notícias, dizem...

D. ANT. (sombrio). Eu não ouvi dizer nada. (Querendo retirar-se) Permitis?...

D. FRA. Jesus! Que tendes?... que ar é esse? (Vendo entrar D. MANUEL DE PORTUGAL.) Vinde cá, Senhor. D. Manuel de Portugal, vinde saber o que tem este meu bom e velho amigo, que me não quer... (Segurando na mão de D. ANTÔNIO.) Então, eu já não sou a vossa frescura de maio?. ..

D. ANT (sorrindo, a custo). Sois, sois. Manhosamente subtil, ou subtilmente manhosa, à escolha; eu é que sou uma triste secura de dezembro, que me vou e vos deixo. Permitis, não? (Corteja-a e dirige-se para a porta).

D. MAN. (interpondo-se). Deixai que vos levante o reposteiro. (Levanta o reposteiro.) Ides ter com Sua Alteza, suponho?

D ANT. Vou.

D MAN. Ides levar-lhe notícias da Índia?

D. ANT. Sabeis que não é o meu cargo...

D. MAN. Sei, sei; mas dizem que... Senhor D. Antônio, acho-vos o rosto anuviado, alguma cousa vos penaliza ou turva. Sabeis que sou vosso amigo; perdoai se vos interrogo. Que foi? que há?

D. ANT. (gravemente). Senhor D. Manuel, tendes vinte e sete anos, eu conto sessenta; deixai-me passar.

(D. MANUEL inclina-se, levantando o reposteiro.

D. ANTÔNIO desaparece).

CENA XIII

D. MANUEL DE PORTUGAL, D FRANCISCA DE ARAGÃO

D. MAN. Vai dizer tudo a El-rei.

D. FRA. Credes?

D. MAN. Camões contou-me o encontro que tivera com o Caminha aqui; eu ia falar ao Senhor D. Antônio; achei-o agora mesmo, ao pé de uma janela, com o dissimulado Caminha, que lhe dizia: "Não vos nego, Senhor D. Antônio, que os achei naquela sala, a sós, e que vossa filha fugiu desde que eu lá entrei".

D. FRA. Ouvistes isso?

D. MAN. D. Antônio ficou severo e triste. "Querem escândalo?..." foram as suas palavras. E não disse outras, apertou a mão ao Caminha, e seguiu para cá... Penso que foi pedir alguma cousa a El-rei. Talvez o desterro.

D. FRA. O desterro?

D. MAN. Talvez. Camões há de voltar agora aqui; disse-me que viria falar ao Senhor D. Antônio. Para quê? Que outros lhe falem, sim; mas o meu Luís que não sabe conter-se... D. Catarina?

D. FRA. Foi lançar-se aos pés da rainha, a pedir-lhe proteção.

D. MAN. Outra imprudência. Foi há muito?

D. FRA. Pouco há.

D. MAN. Ide ter com ela, se é tempo, e dizei-lhe que não, que não convém falar nada. (D. FRANCISCA vai a sair, e pára) Recusais?

D. FRA. Vou, vou. Pensava comigo uma cousa. (D. MANUEL vai a ela) Pensava que é preciso querer muito àqueles dois, para nos esquecermos assim de nós.

D. MAN. É verdade. E não há mais nobre motivo da nossa mútua indiferença. Indiferença, não; não o é, nem o podia ser nunca. No meio de toda essa angústia que nos cerca, poderia eu esquecer a minha doce Aragão? Podereis vós esquecer-me? Ide agora; nós que somos felizes, temos o dever de consolar os desgraçados.

(D. FRANCISCA sai pela esquerda).

CENA XIV

D. MANUEL DE PORTUGAL, logo D. ANTÔNIO DE LIMA

D. MAN. Se perco o confidente dos meus amores, da minha mocidade, o meu companheiro de longas horas... Não é impossível.— El-rei concederá o que lhe pedir D.

Antônio. A culpa, — força é confessá-lo — a culpa é dele, do meu Camões, do meu impetuoso poeta; um coração sem freio... (Abre-se o reposteiro, aparece D. ANTÔNIO.) D. Antônio!

D. ANT. (da porta, jubiloso). Interrogastes-me há pouco; agora hei tempo de vos responder.

D. MAN. Talvez não seja preciso.

D. ANT. (adianta-se). Adivinhais então?

D. MAN. Pode ser que sim.

D. ANT. Creio que adivinhais.

D. MAN. Sua Alteza concedeu-vos o desterro de Camões.

D. ANT Esse é o nome da pena; a realidade é que Sua Alteza restituiu a honra a um vassalo, e a paz a um ancião.

D. MAN. Senhor D. Antônio...

D. ANT. Nem mais uma palavra, Senhor D. Manuel de Portugal, nem mais uma palavra. — Mancebo sois; é natural que vos ponhais do lado do amor; eu sou velho, e a velhice ama o respeito. Até à vista, Senhor D. Manuel, e não turveis o meu contentamento. (Dá um passo para sair).

D MAN. Se matais vossa filha?

(continua...)

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