Por Machado de Assis (1872)
Augusta levantou-se e foi buscar o lenço ao piano.
— Não falemos nisso, disse ela.
Amélia levantou-se também.
— Já se vai? perguntou Madalena.
— Já; tenho de ir escolher uns vestidos. Quer D. Augusta ir comigo?
— Não posso.
— Então, adeus. Olhe, dou-lhe um conselho: não seja cruel.
— Por que não vem tomar chá conosco esta noite? perguntou Augusta.
— Não posso, respondeu a moça, tenho de ir com meu marido visitar o velho Marcos. Conhece, não?
— É aquele homem que me apresentou na noite da seu casamento? perguntou Madalena.
— Justamente; somos parentes. Está muito mal.
— Parecia vender saúde.
— O filho foi lá hoje à nossa casa dar-nos parte da moléstia do pai.
— O dr. Daniel?
— Sim. Adeus!
Amélia saiu.
Depois do baile, era a primeira vez que Augusta ouvia o nome do rapaz, e qualquer que fosse a razão, não pôde ouvi-lo sem algum abalo.
Ficando só na sala, Augusta foi sentar-se ao piano e começou a dedilhar não sei que composição alemã. Mas evidentemente o seu pensamento estava ausente. Algum tempo depois, entrou em casa o tio, acompanhando de Luís.
Depois da recusa que fora dada na província, era a primeira vez que Luís aceitava um convite de B... para jantar em casa dele. Era um escrúpulo pueril, se querem; mas o moço tinha esse escrúpulo e obedecia-lhe involuntariamente. Mas, como resistir às instâncias do velho? E sobretudo como recusar o prazer de respirar o mesmo ar que a moça?
Quando os dois deputados entraram na sala, Augusta levantara-se do piano. O jantar foi imediatamente posto na mesa.
Depois do jantar, Luís esteve algum tempo a sós com Augusta. Conversaram de coisas indiferentes. A moça felicitou-o pelos aplausos que lhe deram como orador. Luís recebia os com um ar de modéstia que não escondia completamente o sentimento de satisfação que lhe dava aquele elogio vindo da boca de Augusta.
Depois, acrescentou:
— Todos esses aplausos têm para mim uma única vantagem: adiantar a minha posição.
— Tem ambição política?
— Não; bem sabe qual é a minha ambição.
A moça ficou séria.
Luís contemplou-a com um sorriso dc dor; depois procurou pegar-lhe na mão, que ela retirou apressada, dizendo:
— Perdão! tenho que fazer...
E como desse um passou para fora, Luís adiantou-se e disse-lhe:
— Engana-se, D. Augusta, eu não venho falar-lhe de coisas em que não posso tocar. Queria simplesmente pedir-lhe desculpas se alguma vez a ofendo com alusões a um sentimento de que não tenho culpa.
— Nem eu, creio.
— Voluntariamente, não.
A moça recuou e foi sentar-se.
— Olhe, disse ela; disse-lhe uma vez que podíamos ser bons amigos. Quer assim?
— Aceito, e já é muito; mas creio que me é lícito esperar o seu amor.
— Esperança inútil.
— Inútil? será, mas espero.
Augusta sorriu.
— Ambiciosa, disse consigo Luís.
Mas ao mesmo tempo, como que arrependido desta exclamação interior, o namorado entrou a sorrir para ela — sorriso de súplica e de contrição.
Augusta não reparou nisso.
No entanto, a tarde caía, e a melancolia da hora servia de fundo àquele quadro já de si tão triste: um coração de fogo ao pé de um coração de rocha, um destino inteiro nas mãos de uma mulher indiferente, a vida ou a morte de um homem dependente do olhar compassivo de uma mulher.
Uns terão simpatia pela posição de Luís; outros tédio. Depende dos caracteres. Os altivos julgarão que nenhum homem deve aspirar à mão de uma mulher, quando esta lha recusa. São leis boas para o papel. Quem conhece o coração humano compreende, lastimando embora, essas situações humilhantes em que o amor pode colocar um homem, aliás brioso e digno de si.
Não poucas vezes, Luís discutira consigo mesmo a situação em que se achava, e nunca o seu espírito lavrou uma sentença de abandono que lha não reformasse o coração, juiz em última instância nestas matérias de amor.
Todavia, a cena daquela tarde impressionara singularmente o moço. Pareceu-lhe que a insistência seria já degradação; resolveu lutar e esperar.
Despediu-se de Augusta pouco depois e saiu.
Augusta, quando se achou só, respirou; era evidente que a presença de Luís a importunava.
VII
A doença de Marcos foi mortal; dois dias depois da visita de Amélia o bom velho faleceu, deixando saudades a todos quantos o conheciam.
Na vida de Daniel, foi um vácuo. Não se costumara à idéia de que viria a perder o pai; era a única família que tinha, e provavelmente o único ente a quem estimava neste mundo. Os amigos deram-lhe as consolações do costume; alguns discursos foram proferidos na ocasião de dar-se o cadáver à sepultura; mas discursos, nem consolações podiam distrair o moço da dor que acabava de sofrer.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.