Por Machado de Assis (1867)
Ouviu-se a voz do conselheiro que despedia o aliado político depois de assentar com ele em que a situação política não podia ser pior.
O conselheiro apareceu na sala pouco depois.
A presença do conselheiro era necessária na situação esquerda em que se achavam os dois. Sílvia levantou-se e foi ao pai, com um sorriso.
— Então, meu pai, já acabou as suas práticas de política?
— Já, já... E tu? Oh! não cuidei ter o prazer de encontrá-lo ainda aqui... sr. Teófilo... Teófilo, que se achava de pé, adiantou-se :
— É verdade, ainda aqui estava.
— Ora bem, há de tomar chá conosco.
— Desculpe, não posso... Já me ia embora...
— Já? Mas se não é negócio importante. Não tem mulher ciumenta...
— Tenho mãe, sr. conselheiro, mãe e irmã... ciumentas ambas... que me amam e a quem correspondo a estima e o amor que me têm.
Sílvia sorriu-se, batendo com o cabo do leque nos lábios...
Teófilo não reparou neste sorriso.
— Enfim, disse o conselheiro, se é assim, não quero ser a causa de dano algum a essas senhoras... Mas, até amanhã, não?
— Até... amanhã.
Teófilo apertou a mão ao conselheiro. Depois estendeu a sua a Sílvia, que lhe deu apenas as pontas dos dedos fazendo um leve sinal de cabeça... Mas quando retirou os seus dedos, Sílvia não pôde deixar de estremecer. Sentira que a mão de Teófilo estava fria de gelo.
O caminho entre a casa de Sílvia e a de Teófilo era longo. Teófilo venceu esse espaço absorto em amargos e dolorosos pensamentos. Palpitava-lhe o coração de dor, e, no meio das torturas por que passava então, tinha grande parte do seu amor próprio ofendido.
Ao aproximar-se de casa viu um vulto à janela. Era Helena. O poeta não se admirou. Helena esperava-o sempre até ele chegar. Teófilo, que demorava sempre em trocar algumas palavras com a moça, nessa noite mal a cumprimentou, retirando-se logo para o quarto.
Helena estranhou isto, mas nada disse. Ficou na sala algum tempo e depois retirou-se para o seu quarto. Ao passar pela porta do quarto de Teófilo, Helena ouviu o som abafado de uns soluços. Parou e colou o ouvido à porta. A moça não se pôde conter: sentiu caírem-lhe as lágrimas e retirou-se apressadamente.
Com efeito, Teófilo apenas se viu só soltou livremente as suas lágrimas. Eram naturais estas lágrimas em uma natureza tão delicada e tão sensível. As lágrimas não são somente o apanágio da fraqueza, são também o sintoma da elevação e da delicadeza dos sentimentos. Teófilo chorava, como cantava: era uma maneira de exprimir as suas comoções.
Ora, estas comoções naquela ocasião eram das mais poderosas que podia sofrer o coração do poeta. Levara a construir um castelo de quimeras para vê-lo decaído com algumas palavras frias e desdenhosas de uma mulher. Reunira naquele amor todas as forças vivas da sua mocidade e do seu coração; e quando na plena confiança do amor em que ardia julgou receber a sentença da felicidade, ouvira pura e simplesmente a sentença de morte.
Mais ainda. Não era só o amor que ficara burlado: era o objeto do seu amor que se desonrava a seus olhos. Em sua fantasia de poeta e sua ignorância das coisas do mundo tinha imaginado na mulher que amava uma alma tão pura como era pura a beleza física. Até esta ilusão se desvanecia. Aquela perfeição física era uma vulgaridade moral.
Quando se recebe uma dupla desilusão desta ordem, os olhos não têm vergonha de chorar sobre os sonhos desvanecidos. Os olhos do poeta choravam loucamente. Mas a primeira explosão passou. Veio não a calma, mas o cansaço. Teófilo reuniu algumas idéias e pôde medir o horror da situação. De tal modo a viu que chegou a culpar se de tudo o que ocorrera.
— Não vi eu, dizia ele consigo, que distância imensa me separava daquela mulher? Quem me levou a levantar olhos para tão alto? Era bem pensada a minha esquivança de outrora, e se eu nunca aceitasse o convite que me abriu as portas do mundo estaria agora tão calmo e tão tranqüilo como dantes. Volto agora com uma ilusão de menos e um remorso de mais. Eu devia ver desde logo que se ela me abria as portas de sua sala, não estava obrigada a abrir-me as do seu coração.
Teófilo resumiu estes sentimentos e estas reflexões em uma elegia que escreveu nessa
mesma noite; soluço poético, solto no meio do devaneio da dor e na situação sombria do seu coração.
No dia seguinte a velha Teresa reparou no ar triste do filho e nos olhos pisados com que ele se levantou. Teófilo respondeu às solicitações da mãe, que esta última circunstância provinha de se ter deitado tarde; e quanto à tristeza, disse que nunca se achara de ânimo mais alegre.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.