Por Machado de Assis (1875)
— Que é isto? disse enfim.
— Nada; apenas precauções, respondeu Alves pacificamente.
Moreira compreendera tudo; preparou-se para a negativa. Mas até que ponto estaria Alves informado dos seus atos? esta era a dúvida. Entretanto começou Alves a falar:
— Sabes que opinião fiz de ti desde longos anos?
Moreira fez um gesto afirmativo.
— Sabes que opinião formo hoje? Hoje, penso que és um miserável. Moreira estremeceu e fez um gesto para se levantar.
Alves apontou-lhe o revólver.
— Senta-te, disse-lhe.
E continuou:
— És um miserável, como poucos. Estás convencido disso; não me demoro em recordar as tuas ações. Venho por outra coisa.
Moreira estava pálido; dissuadira-se da idéia de que ele vinha assassiná-lo; mas ocorreu lhe a de que ele viria obrigá-lo a um duelo sem testemunhas, e Moreira tinha idéia e temperamento de todo o ponto opostos ao duelo.
Alves continuou:
— Vais escrever e assinar um papel assim concebido: “
— É impossível! clamou Moreira levantando-se de um pulo.
Alves sorriu-se.
— Nesse caso morres, disse ele, porque eu não saio daqui sem obter uma destas duas coisas: ou o papel ou a tua vida.
Moreira deu alguns passos agitados, trêmulo de medo e cólera. De repente uma idéia lhe passou pela cabeça: atirar-se ao amigo e esganá-lo, com tal ímpeto que não lhe desse tempo de resistir, e menos ainda de o atacar. Relanceou um olhar para o advogado, e aproximando-se vagarosamente da mesa, deu um salto sobre o inimigo.
Alves previra aquilo mesmo, de maneira que Moreira antes de o segurar como queria, foi obrigado a recuar diante do revólver encostado ao peito.
Moreira soltou um rugido.
— Afadigas-te sem proveito, observou tranqüilamente o advogado; nada podes obter senão uma das duas cláusulas que te propus. Escolhe.
Moreira era antes de tudo covarde. A hesitação dele não provinha de outra coisa senão do medo que lhe causava o efeito da declaração que se lhe pedia. Uma vez, porém, adquirida a certeza de que a morte seria a punição da recusa, era claro que ele escreveria o papel.
Entretanto, lançou-se aos pés do Alves, confessou-lhe tudo, pediu-lhe perdão. Alves mostrou-se inflexivel. Era forçoso ceder: Moreira cedeu. Com a mão trêmula, lançou mão da pena e escreveu o que lhe ditou o advogado, assinou o escrito e entregou-lho.
— Muito bem, disse Alves; a letra está um pouco trêmula, mas logo se reconhece o medo que tinhas no coração. Agora, miserável, à primeira tentativa posso desonrar-te e matar te.
Alves abriu a porta e saiu.
Moreira ficou abatido durante meia hora; veio depois uma reação, levantou-se da cadeira, quebrou uma cadeira, ameaçou, lastimou-se... mas tudo em vão. O mal estava feito e a punição era absoluta.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Onze anos depois. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1875.