Por Machado de Assis (1866)
Penetrou entre nós, e a todos vós tentando
Da vanguarda do céu vos anda separando.
MARTE
Oh! não, porém...
JÚPITER
Porém?
MARTE
Eu falarei mais claro
No conselho.
JÚPITER
Ah! E tu?
APOLO
Eu o mesmo declaro.
JÚPITER
(a Mercúrio)
Tua declaração?
MERCÚRIO
É do mesmo teor.
JÚPITER
Ó trezentos de Esparta! Ó tempos de valor!
Eram homens contudo...
APOLO
Isso mesmo: é humano.
Era a força do persa e a força do espartano.
Eram homens de um lado, e homens do outro lado;
A terra sob os pés; o conflito igualado.
Agora o caso é outro. Os deuses demitidos
Buscam reconquistar os domínios perdidos.
Há deuses do outro lado? Há homens.
Neste caso
Não teremos a luta em campo aberto e raso.
JÚPITER
Assim, pois?
APOLO
Assim, pois, já que os homens não podem
Aos deuses elevar-se, os deuses se acomodem.
Sejam homens também.
MARTE
Apoiado!
MERCÚRIO
Apoiado!
JÚPITER
Durmo ou velo? Que ouvi!
MARTE
O caso é desgraçado.
Mas a verdade é esta, esta e não outra.
JÚPITER
Assim
Desmantela-se o Olimpo!
MERCÚRIO
Espírito ruim
Não há, nem há fraqueza, ou triste covardia.
Há desejo real de concluir um dia
Esta luta cruel, estéril, sem proveito.
Deste real desejo, é este, ó pai, o efeito.
JÚPITER
Estou perdido!
Cena XII
Os mesmos, VULCANO, PROTEU
JÚPITER
Ah! vinde, ó Vulcano, ó Proteu!
Estes três já não são nossos.
VULCANO
Nem eu.
PROTEU
Nem eu.
JÚPITER
Também vós?
PROTEU
Também nós!
JÚPITER
Recuais?
VULCANO
Recuamos.
Com os homens, enfim, nos reconciliamos.
JÚPITER
Fico eu só?
MARTE
Não, meu pai. Segue o geral exemplo.
É inútil resistir; o velho e antigo templo
Para sempre caiu, não se levanta mais.
Desçamos a tomar lugar entre os mortais.
É nobre: um deus que despe a auréola divina.
Sê homem!
JÚPITER
Não! não! não!
APOLO
O tempo nos ensina
Que devemos ceder.
JÚPITER
Pois sim, mas tu, mas vós,
Eu não. Guardarei só um século feroz
A honra da divindade e o nosso lustre antigo,
Embora sem amparo, embora sem abrigo.
(a Apolo, com sarcasmo)
Tu, Apolo, vais ser pastor do rei Admeto?
Imolas ao cajado a glória do soneto?
Que honra!
APOLO
Não, meu pai, sou o rei da poesia.
Devo ter um lugar no mundo, em harmonia
Com este que ocupei no nosso antigo mundo.
O meu ar sobranceiro, o meu olhar profundo,
A feroz gravidade e a distinção perfeita,
Nada, meu caro pai, ao vulgo se sujeita.
Quero um lugar distinto, alto, acatado e sério.
Co'a pena da verdade e a tinta do critério
Darei as leis do belo e do gosto. Serei
O supremo juiz, o crítico.
JÚPITER
Não sei
Se lava o novo ofício a vilta de infiel...
APOLO
Lava.
JÚPITER
E tu, Marte?
MARTE
Eu cedo à guerra de papel.
Sou o mesmo; somente o meu valor antigo
Mudou de aplicação. Corro ainda ao perigo,
Mas não já com a espada: a pena é minha escolha.
Em vez de usar broquel, vou fundar uma folha.
Dividirei a espada em leves estiletes,
Com eles abrirei campanhas aos gabinetes.
Moral, religião, política, poesia,
De tudo falarei com alma e bizarria.
Perdoa-me, ó papel, os meus erros de outrora,
Tarde os reconheci, mas abraço-te agora!
Cumpre-me ser, meu pai, de coração fiel,
Cidadão do papel, no tempo do papel.
JÚPITER
E contudo, inda há pouco, o contrário dizias,
E zombavas então destas papelarias...
MARTE.
Mudei de opinião...
JÚPITER
(a Vulcano)
E tu, ó deus das lavas,
Tu, que o raio divino outrora fabricavas.
Que irás til fabricar?
VULCANO
Inda há pouco o dizia
Quando Marte do tempo a pintura fazia:
Se o valor deste tempo é de peso ou de almaço,
Mudo de profissão, vou fazer penas de aço.
Hei de servir alguém, aqui ou em qualquer parte,
Ou a ti ou a outro, ou a Jove ou a Marte.
Os raios que eu fazia, em penas transformados,
Como eles hão de ser ferinos e aguçados.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Os deuses de casaca. Rio de Janeiro, 1866.