Por Machado de Assis (1867)
Carlota recebeu-o com um gesto de surpresa. Foi a ele e perguntou-lhe se já estava bom. Ele descobriu logo o fingimento daquela solicitude e quis mostrar que não se enganava. Suas exprobrações foram enérgicas e veementes. Carlota ouviu-o com uma espécie de torpor.
Depois, quando a alma do poeta derramou em palavras amargas a dor de que estava possuído, veio uma prostração moral, e o poeta, já mais brando, pediu a Carlota uma explicação da carta que esta lhe mandara.
Então, a viúva, fingindo um grande esforço, deu em pleno rosto ao namorado poeta uma resposta que equivalia a um tiro. Disse-lhe que se ia casar, e com Venâncio. Afigurava-se ao poeta esta união como tão monstruosa, que ao princípio não quis acreditar nas palavras de Carlota. Olhou surpreso para ela, mas surpreso como o homem que não dá crédito, e intimou-lhe que falasse seriamente.
— Mais seriamente do que falo? perguntou Carlota.
— Sim, seriamente.
— É isto.
— Pois deveras...
— É verdade.
O rapaz sentiu que lhe faltava o chão debaixo dos pés. Pareceu-lhe que ia cair em um abismo. É assim que deve ser a vertigem do náufrago. Como o náufrago, o poeta agarrou-se ao primeiro objeto que encontrou. Era um sofá. Encostou-se ao sofá e olhou fixo para Carlota.
— Sei que isto lhe há de doer, mas é necessário...
— Mas ama-o?
— Amo.
— Ah! não diga isso!
— Por que não?
E fazendo esta pergunta a moça mostrou um ar de desdém que o poeta humilhado, abatido, indignado, não pôde dizer mais palavra. Foi, com passo incerto e vacilante, buscar o chapéu que se achava sobre o piano, e cumprimentando a viúva friamente, encaminhou-se para a porta.
A moça deu alguns passos para ele e murmurou:
— Só uma coisa lhe peço.
O poeta deteve-se. Era ainda uma esperança que lhe surgia no meio daquela amargura e desespero de que enchera sua alma. Interrogou-a com o olhar. A moça, pregando os olhos no chão, disse:
— Não me queira mal.
— Que não lhe queira mal? Mas isto é zombaria... Não lhe queira mal!... Acha que me faz
um beneficio... Não vê que me matou?
— Ah! perdão... mas...
— Ama a outro, não? perguntou o moço com ironia.
— Amo, respondeu ela, mas de modo que o poeta antes adivinhou do que ouviu.
X
O moço saiu desesperado da casa de Carlota.
Passaram-se os dias. O mal que o minava foi tomando proporções maiores, e dentro de pouco tempo declararam-se os tubérculos pulmonares. É a minha moléstia, como sabe, doutor.
Aos primeiros cuidados que tiveram amigos e parentes para que se curasse, o poeta recusou peremptoriamente. Ofereceu-se ocasião de ir a Buenos Aires; não quis; e para não dar a verdadeira razão desta recusa, disse que tinha esperança de curar-se na terra natal, e que além disso tinha aversão às viagens marítimas.
Queria morrer? perguntará o doutor. Queria e quer. Odiava a mulher? Não, amava-a, ainda a ama tudo que possa dizer e sentir contra ela, não é senão amor disfarçado. Se não fosse assim, decerto que teria aceitado a vida que lhe ofereciam às mãos cheias. Mas recusou tudo; aceitou a moléstia como um bem da Providência. Pedir-me-á a explicação deste amor por um monstro, e eu não saberei o que lhe hei de dizer.
Todavia, há um fato que me parece explicar tudo, e vem a ser: se o amor do poeta fora um desses amores fáceis ou simplesmente uma dessas afeições que tomam base na vaidade pueril, creio que a perfídia de Carlota teria ofendido a suscetibilidade, deixando intacto o coração, porque realmente o coração não se interessa em afeições tais. Mas o amor do poeta não era esse: era o amor verdadeiro, o amor único; a traição não podia deixar de aniquilá-lo. Foi o que sucedeu. Não sou filósofo, doutor; mas afigura-se me que as coisas se passaram assim.
Durante os primeiros tempos de sua moléstia, o poeta procurou sempre todas as ocasiões em que podia ver Carlota. A custo puderam contê-lo no dia do casamento da viúva. Ele queria, à força, ir assistir a esta cena e confundir com a sua presença os desposados. Onde quer, porém, que pudesse encontrá-la, e em poucos lugares era, o rapaz ia e não deixava de fixar nessa mulher os olhos de dor e desespero. Depois, voltava mais doente e mais amante para casa. Houve uma ocasião em que podia falar-lhe; não quis; entendia poder vê-la; falar-lhe afigurava-se ao moço que seria condenável.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.