Por Coelho Neto (1890)
— Ah! Falando, Ruy Vaz, para não perder tempo, ia vestindo-se. A história é simples. Já pensei em escrevê-la com o título: A psicologia das botas. Há botinas de primeira mão, ou antes: de primeiro pé, e há botinas sabidas. Sabido é o calçado experiente que já serviu a outrem, e por velho, passou à tripeça do remendão que lhe pôs uma tomba e uma sola, vendendo-o por preço cômodo aos que vivem a esperar sapatos de defuntos. Não penses que te quero chamar defunto, nem contava hoje contigo. A felicidade vem sempre inesperadamente. As sabidas guardam os hábitos do primeiro dono. Se serviram a um militar forçam os pés ao ritmo da marcha; se foram de um amanuense levam-nos à secretaria e assim por diante; é macabro, mas é verdadeiro. Tive um par de botas que me arrastava sempre para as praias, para as casas de armas, para as farmácias, para os trilhos dos bondes. Preocupado com essa contumácia dei-me ao estudo do caso e convenci-me que o primeiro dono fora um desgraçado que tinha mania do suicídio. Essas que agora possuo foram, com certeza, na primeira encarnação, de algum empregado da secretaria de Agricultura. Os teus sapatos são novos?
— Comprei-os ontem.
— Ah! Então são puros, não estão ainda viciados. Vou com eles como se levasse nos pés as asas de Mercúrio. Dá-me-os. O estudante, meio desconfiado, tirou os sapatos e mergulhou os pés nas desbocadas chinelas do romancista.
Rápido, Ruy Vaz calçou-os e pôs-se de pé radiante.
— Então, servem?
— Ora! Estou como no Paraíso! Não há como a gente ter o mesmo número e é maravilhosa a exatidão das matemáticas. Grande coisa o algarismo! Mas fez uma careta: — Diabo, o teu 38 é caixa baixa, tem pouca altura. Tens o pé muito seco, isto é mau. O pé é a base do homem, deve ser forte. Enfim... como o calor dilata os corpos e todo eu ardo em ansiedade... até logo! Tomou a bengala, acendeu um cigarro e estendeu a mão ao estudante:
— Olha, tens aí poetas e filósofos. Sobre a mesa há o volume de odes de um vate goiano, se quiseres dormir. O fumo está aqui nesta velha faiança. Até logo! Se vier alguém não estou em casa, podes mesmo dizer que fui para Petrópolis ou para São Paulo, embarca-me para onde quiseres. Até logo! Já à porta, voltou-se: Se queres fazer exercício de idílio apurando a ternura, das quatro em diante costuma aparecer a uma janela dos fundos daquela casa, que tem a parede blindada de zinco, uma menina ruiva, arrepiada, de olhos chorosos que se presta pacientemente a ouvir declamações: Vai lá para o banco da chácara. Franziu de novo o nariz, torcendo o pé: Diabo! Decididamente tens o pé muito seco... e isto está me incomodando deveras. Até logo, às cinco. E foi-se.
CAPÍTULO II
Anselmo ficou a meditar sobre a estranha Psicologia das botas e sobre o destino dos seus sapatos. Já os via penetrando, com discrição, a câmara da entediada e loura dama. Já os via afundados nos felpudos tapetes, já os via aconchegadinhos às sandálias bordadas da amorosa, falando-lhes em segredo, perto do leito, enquanto os donos...
Ah! O dono dos sapatos era ele e ali estava só, com duas velhíssimas chinelas nos pés, entre livros, diante de uma mesa carregada de papéis onde reluzia a pasta do escritor, bojuda e larga. Que havia de fazer para não sentir as horas lentas e caladas que iam passar? Tirou o casaco e o colete e, senhor da casa, sentiu uma pontinha de despeito, mas recompôs o espírito alvoroçado com um argumento fino e justo: "Sim, se lhe emprestei os sapatos ele confiou-me a casa que, se não vale pelos móveis, duma deplorável banalidade, muito merece pelo que há ali naquela pasta atochada, preciosa como um tesouro e por aquela soberba Barricada que, se agora as aranhas profanam, mais tarde há de ser disputada com o mesmo furor artístico com que hoje os milionários se batem a moedas por um palmo de tela da Renascença." Sentou-se à mesa, tomou um volume, abriu-o ao acaso, e leu:
Une nuit que j'étais prês d'une affreuse Juive,
Comme ou long d'un cadavre, un cadavre étendu, Je me pris à songer...
Eram versos de Baudelaire. Apesar de os conhecer, deixou-se levar por eles, embalado no ritmo das estrofes, seduzido pela sonoridade das rimas, mas, de quando em quando, desviava-se-lhe o espírito: a transcendente Psicologia das botas perseguia-o e os seus sapatos como que lhe passavam por diante dos olhos animados, fugindo numa névoa para a câmara cheirosa de uma mulher loura, que surgia dentre sedas e linhos, esplêndida de graça e nua como a Vênus quando nasceu do mar, enrolada em rendas de espumas, à luz do sol da Hélade divina.
Levantou-se bocejando e, mole, sob o influxo dormente do silêncio e do sol que espalhava um suave narcótico no ar, atirou-se à cama com o Baudelaire e leu até que o livro aberto lhe caiu sobre o peito e os olhos se lhe fecharam languidamente.
Que horas seriam quando despertou? Vinha perto a noite. A brisa era fresca, a luz era branda. Sons de flauta passavam no ar. Seria o rouxinol? Não, não era o rouxinol nem era a cotovia, mas um vizinho melómano que soprava o tubo. Ergueuse, foi lavar o rosto e, revendo-se ao espelho, lançou à própria imagem esta interrogação preocupada: "Por onde andarão os meus sapatos?" Escurecia. Começava a entediar-se quando bateram à porta discretamente.
— Quem é?
— Sou eu, disse alguém com preguiçoso vagar. Foi à porta, entreabriu-a e distinguiu um vulto imenso de mulher. Como lera a Géante, de Baudelaire, atribuiu a aparição daquela monstruosidade à sugestão da leitura. Mas a aparição movia-se, coçava o queixo e falou:
— Sinhá mandô sabê vosmicê cum passô e si vai lá...
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.