Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Mas ridículo, sim; um tal castigo

Que na memória fique da cidade,

Que as mães contem às filhas casadeiras

E de eterna irrisão teu nome cubra!"

XI

Ora, uma noite, após conversa longa,

Freire encostado ao muro, ela à janela,

Naquele doce olvido de si mesmos

Em que toda se envolve a alma encantada,

Após ardentes e trocados beijos,

Trocados . . . mas de longe, - a bela moça: "Adeus!

(murmura)

É tarde; vai-te embora.,

Se papai nos descobre, estou perdida.

Foge meu doce amor; olha, não percas,

Por um instante mais, toda a ventura

Que nos aguarda em breve. Tanta gente

Tem inveja de ti! Não sei, receio;

Fala-me o coração. . ." - Com voz macia,

Replica o namorado: "Importa pouco,

Ó minha bela Margarida, a inveja .

De tão frouxos rivais. Se for preciso,

Eu, que sou tão pacato, a todos eles

Darei uma lição de tanto peso

Que, inda depois de mortos e enterrados,

Lhes doerá nas abatidas costas.

Que queres? Minha força és tu; teus olhos

Para mim valem mais que cem espadas.

Com eles na memória, amada minha,

Nada temo na terra; um regimento,

Um touro bravo, cem medonhas cobras,

Uma horda guerreira de tapuias,

Tranqüilo afrontarei, se a tua vida,

Se o nosso amor, de os afrontar dependem".

XII

Assim falou o Freire; e despedidos

Um do outro com juras e protestos,

Depois de muitas e bonitas cousas,

Desapareceu a bela Margarida,

Enquanto o resoluto namorado

Para os lares inclina a ousada proa.

Não cuides tu, taful do tempo de hoje,

Que ao toque da alvorada à casa tornas,

Cantarolando uma ária que a Lagrange

Nos desvãos da memória te há deixado,

Que era fácil então, nas horas mortas,

Andar desertas ruas. Treva espessa

O caminho escondia,

Gás nem óleo,

Os passos alumiava ao caminhante

Que não trouxesse a clássica lanterna.[16]

E lanterna traria um namorado

Que andava às aventuras? Bom piloto

Da cidade natal, lá ia o Freire

Sem muito tropeçar buscando os lares.

Cem quimeras, batendo as asas leves,

Lhe revoavam na mente. Ele imagina

Que o velho pai da moça, perdoando

A secreta paixão, lhe entrega a filha

E seu genro o nomeia; que a cidade

De outro assunto não fala uma semana.

Já o casto véu de noiva lhe arrancava

Com as sôfregas mãos...

XIII

Confusas vozes

Ouve subitamente a poucos passos;

Dez vultos surgem, vinte braços se erguem,

E dez golpes de junco lhe desdouram

A descuidada espádua. O pobre Freire,

Para ameigar ou convencer os bárbaros,

Um discurso começa, mas sentindo

A cada frase dez protestos juntos,

A tangente procura das canelas,

E a correr deita pelas ruas fora.

Então, começa a tenebrosa e longa

Odisséia de voltas e re-voltas,

Que em suas vastas regiões etéreas

As lúcidas estrelas contemplaram

A rir à solta, a rir de tal maneira

Que todo o espaço foi sulcado logo

De lágrimas brilhantes, - meteoros

Lhes chama a veneranda astronomia.

Ei-lo que volta rápido as esquinas,

Os passos negaceia, aqui descansa,

Ali tenta ameaçar os seus algozes,

Vinte vezes tropeça e cai por terra,

Vinte vezes ligeiro se levanta,

Grita, voa, murmura, implora e geme,

Té que ofegante de cansaço e medo

Na Lagoa parou da Sentinela.

XIV

Com os ossos moídos, e vexado

Da triste posição em que se vira,

O miserável amador na cama

Foi lastimar os brios e as costelas

E já nas mãos de um benfazejo somo

O espírito entregava, quando a Ira

Com asas de cor de fogo, lhe aparece

E deste modo fala: “Que sossego,

Que covardia é essa que te embarga

A voz para punir tamanha injúria

De um rival?... Sim, rival, que em seu desforço

Dez homens apostou? Pois sabe, ó mísero,

Que o teu futuro do castigo pende;

A sentença que houver punido o infame

Caminho te abrirá para as venturas

Íntimas, conjugais. Fortuna é a dama

Que os corações medrosos aborrece.

Despe a modéstia que te peia os braços;

Vai ao Mustre falar; expõe-lhe a queixa,

E vinga de um só lance o amor e o brio!”

XV

Disse, o tecto rompeu, voou no espaço.

Era sonho ou visão? Por largo tempo,

Entre um grupo de pálidas estrelas,

A figura agitara as rubras asas,

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...56789...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →