Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
A procedência dos cabelos era também questão que excitava muito a curiosidade daqueles que não tinham suspeitas de artifício; mas a principio o dono guardava segredo, porque o mistério ainda mais aumentava essa curiosidade e o concurso de senhoras e cavalheiros na sua loja.
Dentre os adivinhadores, uns diziam que os cabelos tinham pertencido à cabeça de uma pobre camponesa italiana, que os deixara cortar, vendendo-os por pequeno preço, que lhe parecera, coitadinha, elevada quantia, quase riqueza. Outros pretendiam saber que aqueles cabelos tinham sido de uma senhora espanhola, e cortados depois que ela morrera. Outros, talvez leitores entusiastas das Mil e Uma Noites, asseguravam, e seriam capazes de jurar, que a trança maravilhosa provinha do Oriente, onde coroara sublime a cabeça de linda Georgiana ou Circassiana, mísera escrava e vítima dos ciúmes de perverso pachá.
Além dessas, imaginavam-se outras procedências, de Portugal, da Grécia, e nem sei donde mais. Predominavam nas adivinhações o Sul da Europa, e o Oriente. E ninguém, e nenhum tinha a idéia, ou a conjetura de uma brasileira, como triste sacrificadora de seus extraordinários e maravilhosos cabelos.
Riam-se, zombavam desses sonhos ou imaginações os suspeitos que teimavam em considerar a trança exposta na vidraça da loja da Cabeça de Ouro como habilíssima e ilusória obra-de-arte consumada.
Por fim fez-se a luz. A trança que tantos supunham artificial e de falso comprimento de cabelos era natural e absolutamente verdadeira. Eis aqui a simples história da trança de cabelos prodígia.
O Dr. Antônio da Costa foi chamado para tratar de uma senhora ainda jovem e casada, natural da cidade de Mariana (província de Minas Gerais), e dali recentemente chegada.
Qualquer que fosse a moléstia que atormentava a formosa senhora mineira (porque formosa era, como me informaram), sofria ela também constantes dores de cabeça, e no correr do seu tratamento o Dr. Antônio da Costa, que aliás se maravilhara, vendo e contemplando os admiráveis cabelos da doente, exigiu com a maior pena que eles fossem cortados, e, amigo que era do dono da loja, foi dar-lhe notícia daquela riqueza imensa de extraordinários cabelos, contra os quais a ciência médica impusera a tortura horrível da tesoura.
Consumou-se o sacrifício da bela vítima, que viu em pranto caírem cortados seus maravilhosos cabelos; em compensação voltou ela perfeitamente restabelecida para Mariana, e o dono da Cabeça de Ouro, que aproveitara os avisos do seu amigo o Dr. Antônio da Costa, procedeu regularmente e de modo que ficou com os preciosos despojos do sacrifício da tesoura.
Foram pois de uma brasileira, de uma senhora mineira esses cabelos admiráveis, finos, abundantes e formosos, que expostos em trança passaram por inverossímeis em seu comprimento de mais de onze palmos.
Mais tarde escolhidos da cópia imensa daqueles cabelos surpreendentes, quase inverossímeis, os que mais compridos eram, foram mandados para a Exposição Universal de Londres (a segunda), e finda esta vendidos por 5.000$000 do nosso dinheiro, tão grande foi a admiração que eles causaram.
E alonguei-me tanto que o terceiro anexo não cabe neste folhetim.
CAPÍTULO 19
Anexos
Como falhando-me o assunto com que contava para o terceiro anexo, acho excelente recurso nas célebres casas de modas de madame gorda, e das três judias, e finalmente completo este capítulo, que é agora e decididamente o último, contando uma historieta, que as senhoras casadas não devem ler.
Vá a quem toca, e que eu não sei quem seja, mas a quem aliás agradeço a obsequiosa suavidade da carta anônima que me dirigiu.
Procurei zelosamente informações da casa célebre loja de brinquedos, à Rua do Ouvidor quina da de Gonçalves Dias, e fiquei in albis. Apenas me falaram de loja desse gênero próxima à Rua do Ouvidor, mas na de Gonçalves Dias, e bem que este nome esteja gravado profundamente no meu coração, denomina rua cujas casas não podem entrar nas Memórias da Rua do Ouvidor.
O meu leitor anônimo, que tanto me honrou, é quem pode melhor orientar-me, porque, lho digo, consultei a dois velhos respeitáveis dos que me assinalou, outrora jovens estudantes e freqüentadores da loja de brinquedos da Rua do Ouvidor, quina da de Gonçalves Dias, e ambos me responderam pela negativa, e tão decididamente, que me desanimaram o empenho de outras informações.
Ora, o caso é que me achei em apuros de comprometimento. A tal loja de brinquedos devia ser o meu terceiro anexo, e por força maior reconheci-me desanexado!
Mas (vaidade de autor que é tão estulta como todas as outras vaidades deste nosso mundo, planeta de doidos) eu faço, ou fiz de conta que os meus numerosíssimos e enlevadíssimos leitores e principalmente leitoras (ainda mais vaidade no caso) esperavam com interesse e ardor o terceiro anexo, e agora positivamente último capítulo das Memórias da Rua do Ouvidor, obra dantênica, buenarótica, homérica e destinada a atravessar os séculos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.