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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Derreado, amigo — disse Meirinho lamento• samente. Suspirou : — Já não estou para estes ex•

cessos ! Já não estou ! — Ficou um momento a olhar a parede, como se alli visse, n'um desenho claro, a representação das suas antigas forças, e disse, pousando delicadamente o talher : — Pois olhe que fui forte, menino !

Contou, então, proezas de vitalidade, que personagens illustres tinham admirado : andar cinco dias de caminho de ferro, passar tres noites em claro . . . E com um rizinho lubrico :

— E peor ! peor !

Descreveu façanhas amorosas . . . Ah, bons tem POS !

— Uma sombra do que fui, meu caro senhor — E com um tom mais grave : — Em todo o caso, para prestar serviço a um amigo, ainda sou homem para andar um dia e uma noite . . .

Sorveu o fundo do café, limpou a barba e, er guendo-se, espreguiçou -c e : mas pediu logo descul pa d'aquelie abandono familiar, — que emfim, entre aminos, entre patricio.s

Que eu sou do Porto, sou da provincia . . .

Riu, sem motivo, com a pe]le em redor dos olhos muito franzida. Achou a Arthur melhor cara.

—E o nosso bom Padilhão ? Bello rapaz, hein ? Venha fumar um charutinho cá acima ao meu quarto . . .

Estava alojado no segundo andar. O qüa,rto, mais largo, melhor que o d'Arthur, tinha um arranjo

minucioso. Havia, mettido n'um vaso, um espanador de pennas, com que elle mesmo perseguia o pó nas frinchas mais cerradas. Entalados no caixilho do espelho, tinha todos os cartões de visita das pessoas que o visitavam, como a exposição heraldica das suas relações ; sobre a commoda, dispostos em semi-circulo, em passe-purtouts de marfim, figurava a galeria dos seus enthusiasmos : —a Rainha, sentada no peitoril d'uma janella ornada d'hera, a Imperatriz Eugenia, fazendo um rosto digno de viuva illustre, Mademoiselle Theo, das Bouffes, com um Signal assassino, quasi na ponta do seio esquerdo, Pio IX, com o seu sorriso quente de pontifice amavel, Paulo de Rock, de pelliça, Victor-Emmanuel, .com a sua face de bull-dog heroico — e sobre o tou.cadory uma pregadeira bordada a matiz ostentava um rotulo, como um objecto de museu : — « offereeido no meu dia natalicio pela nobre Marqueza de Folhes

Meirinho tinha-se estendido languidamente na poltrona e olhava com satisfação os seus chinelos bordados a missanga. Pela vidraça aberta, uma aragem enfunava os reps das bambinellas ; defronte, n'uma janella de peitoril, uma creada sacudia um tapete e os ruidos da rua tinham uma tonalidade alegre, na manhã muito luminosa.

— Como estará o cãozinho ! — disse Meirinho com um sorriso commovido. Pediu licença a Arthur

para se tornar a espreguiçar, e olhando-o, batendo as palpebras : — Está-mc a chegar a somneca. Quem lhe fez a sobrecasaca ? está bem boa.

Arthur mirou-se no espelho : parecia-lhe boa,

hein ?

— Muito boa ! — E fitando-o gravemente, como n'uma resolução profunda : — Mas rica obra voulhe eu mostrar !

Levantou-se com esforço e foi tirar do guardaroupa atulhado um paletot leve, côr de café, com bandas de sêda. Expol-o á luz da janella, e muito serio :

— Que me diz a esta riqueza ?

Arthur soprou o fumo do charuto para o lado :

— Muito bonito !

— Hein ? Pois posso ceder-lh'o.

Arthur, embaraçado, disse :

— Não, não . .

— PoseN 0 ceder-lh'o ! .Palavra ! — insistiu Meirinho. — E pelo preço, com franqueza ! Nunca o puz. Não me tenho atrevido, é muito claro para a minha edade ! Vista-o, vista-o !

Elle mesmo lh'O enfiou rapidamente, com uma destreza servical de creado fino, assentou-lh'o nas costas, esticou-o — e levando-o deante d')un espe-

Parece um principe ! Hein, que chic ? Foi feito para si, com certeza ! Fique c@m elle, com

franqueza . . . Cinco libras. É de graça. É de Paris, de um grande estabelecimento. Aqui não lh'O faziam.

Arthur, tentado pelo paletot e para condescender com o Meirinho, acceitava, córando, quando elle, com um gesto da mão espalmada :

— Perdão, podemos fazer outra cousa.

Foi á commoda e trouxe solemnemente uma pequena caixa de marroquim verde ; e com uma lentidão grave :

— Meu caro senhor, vae vêr uma preciosidade ! Era um par de pistolas, muito reluzentes, n'um fundo de velludilho preto.

—- Hein ? Urn primor.



(continua...)

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