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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Não, homem! Jantar muito quieto, muito íntimo. Unicamente o André e o João Gouveia.Telegrafas ao João Gouveia. Também podes convidar os Mendonças... Mas jantar muito discreto, só para conversarmos, para firmar a reconciliação dum modo mais sociável, mais elegante.

Ao outro dia, no Governo Civil, Barrolo e o Cavaleiro apertaram as mãos com tanta singeleza, como se ambos, ainda na véspera, andassem jogando o bilhar e caturrando no club da rua das Pegas. De resto conversaram sumariamente sobre a Eleição. Apenas o Cavaleiro aludira com indolência aos votos da Murtosa - o bom Barrolo quase se engasgou, na ânsia de os oferecer:

- E o que vocês quiserem... Votos, dinheiro, o que vocês quiserem!... Vocês digam! Eu vou paraa Murtosa, e é comezaina, e pipa de vinho aberta, e a freguesia inteira a votar no meio de foguetório...

O Cavaleiro, rindo, amansou aquele fervor faustoso:

- Não, meu caro Barrolo, não! Nós preparamos uma eleição muito sóbria, muito sossegada. VilaClara elege Gonçalo Mendes Ramires deputado, naturalmente, como o seu melhor homem. Não há combate, o Julinho é uma sombra. Portanto...

O Barrolo persistia, radiante, gingando:

- Perdão, André, perdão! Lá isso vinhaça, e vivório, e foguetório, e festança magna...

Mas Gonçalo, embaraçado, ansioso por suster a garrulice do Barrolo, as palmadas carinhosas com que ele se atufava na intimidade do Cavaleiro, apontou para a mesa de S. Exa..

- Tu tens que fazer, André. Vejo aí uma papelada pavorosa... Não roubemos mais tempo aochefe ilustre do Distrito! Ao trabalho!

Trabalhar, meu irmão, que o trabalho E André, é virtude, é valor!...

Agarrara o chapéu, acenando ao cunhado. Então Barrolo, com as bochechas a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a reconciliação de um modo sociável e elegante:

- Cavaleiro, para conversarmos melhor, se você nos quiser dar o gosto de vir jantar... Quintafeira, às seis e meia... Nós, quando cá está o Gonçalo, jantamos sempre mais tarde.

O Cavaleiro, que corara, agradeceu com discreta cerimônia:

- É para mim um imenso prazer, uma imensa honra...

E à porta da ante-sala onde os acompanhara, segurando o pesado reposteiro de baeta escarlate com as Armas Reais bordadas - suplicou ao Barrolo que pusesse os seus respeitos aos pés da Sra. D. Graça...

Barrolo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a testa, o pescoço, umedecidos pela emoção. E no pátio desabafou:

- Muito simpático este André! Rapaz franco, de quem sempre gostei... Realmente estava mortoque acabassem estas histórias... E mesmo lá para os Cunhais, para a companhia, para o cavaco, que bela aquisição!

Quinta-feira de manhã depois do almoço, no terraço do jardim onde tomavam café, Gonçalo recomendou ao Barrolo que "para acentuar mais completamente a intimidade simples do jantar, não pusesse casaca..."

- E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre...

Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um Almanach de lembranças estendida numa cadeira de verga, com um gatinho branco no regaço.

Depois do alvoroço e pasmo de domingo, ela aparentava agora um desinteresse silencioso pela reconciliação que ainda abalava Oliveira, pela Eleição, pelo jantar. Mas nesses dias não sossegara - tão impaciente e sensível que o bom Barrolo incessantemente lhe aconselhava o grande remédio da mamã contra os nervos, "flores de alecrim, cozidas em vinho branco".

Gonçalo percebia claramente a perturbação em que a lançava aquela entrada triunfal de André, do antigo André, na sua casa de casada, nos Cunhais. E para se tranqüilizar evocava (como na estrada do cemitério em Vila-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu rígido e puro pensar, a altivez da sua almazinha heróica. Nessa manhã mesmo, todo no fresco e sôfrego cuidado da sua Eleição, só receava que Gracinha, por embaraço ou cautela, acolhesse secamente o Cavaleiro, o esfriasse no seu renovado fervor pela Casa de Ramires, no seu patrocinato Político. E insistiu, gracejando:

- Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria aos hóspedes...

Ela murmurou, mergulhada no seu Almanach:

- Sim, realmente, com este calor...

Mas Barrolo bateu uma palmada na coxa. Que pena! que pena não terem Oliveira, "para o brinde de reconciliação", um famoso vinho do Porto, da garrafeira da mamã, preciosíssimo, velhíssimo, do tempo de D. João II...

- D. João II? - rosnou Gonçalo. - Está estragado!

Barrolo hesitou:

- D. João II ou D. João VI... Um desses Reis. Enfim, um vinho único, do século passado! Sórestam à mamã oito ou dez garrafas... E hoje, era dia para uma, bem?

O Fidalgo deu um sorvo lento ao café:

- O André, antigamente, também gostava muito de ovos queimados...

Bruscamente Gracinha fechou o Almanach - e, com uma fuga e um silêncio que emudeceram Gonçalo, sacudiu do colo o gato dorminhoco, atravessou o terraço, desapareceu entre os teixos altos do jardim.

(continua...)

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