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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

conversavam há pouco"Fica para o domingo que vem!" Eia, piedade ao menos; sê piedosa, ó boníssima Sofia! Se hás de amar a alguém, fora do matrimônio, ama-o a ele, que te ama e é discreto Anda, arrepende-te do gesto de há pouco . Que mal te fez ele, e que culpa lhe cabe se és bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque ele a comprou, e menos ainda as linhas e a navette que tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu és má, Sofia, és injusta...

CAPÍTULO CXLII

SOFIA deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e não lhe disseram cousa diferente. Há desses acertos maravilhosos Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de idéias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as cousas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra. A expressão"Conversar com os seus botões", parecendo simples metáfora, é frase de sentido real e direto. Os botões operam sincronicamente conosco; formam uma espécie de senado, cômodo e barato, que vota sempre as nossas moções.

CAPÍTULO CXLIII

FEZ-SE O PASSEIO à Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda do cavalo, ao descerem. Não foi Rubião que caiu, nem o Palha, mas a senhora deste, que vinha pensando em não sei que, e chicoteou o animal com raiva; ele espantou-se e deitou-a em terra. Sofia caiu com graça. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho tentador de justeza. Otelo exclamaria, se a visse"Oh! minha bela guerreira!" Rubião limitara-se a isto, ao começar o passeio"A senhora é um anjo!"

CAPÍTULO CXLIV

- FIQUEI COM O JOELHO dorido, disse ela entrando em casa e coxeando.

-Deixa ver.

No quarto de vestir, Sofia levantou o pé sobre um banquinho e mostrou ao marido o joelho pisado; inchara um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, não querendo machucá-la. chegou-lhe a pontinha dos beiços apenas.

-Fiquei descomposta quando caí?

-Não. Pois com um vestido tão comprido. . . Mal se pôde ver o bico do pé. Não houve nada, acredita.

-Jura que não?

-Que desconfiada que você é, Sofia! Juro por tudo o que há mais sagrado, pela luz que me alumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita?

Sofia ia cobrindo o joelho.

-Deixa ver outra vez. Creio que não será nada maior; bota um pouco de qualquer cousa. Manda perguntar à botica.

-Está bom, deixa-me ir despir, disse ela forcejando por descer o vestido.

Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna onde pegava com o cano da bota. De feito, era um belo trecho da natureza. A meia de seda mostrava a perfeição do contorno. Palha, por graça, ia perguntando à mulher se machucara aqui, e mais aqui, e mais aqui, indicando os lugares com a mão que ia descendo. Se aparecesse um pedacinho desta obra-prima, o céu e as árvores ficariam assombrados, concluiu ele enquanto a mulher descia o vestido e tirava o pé do banco.

-Pode ser. mas havia só o céu e as árvores, disse ela, havia também os olhos do Rubião.

-Ora, o Rubião! S verdade; ele nunca mais teve aquelas tolices de Santa Teresa? -Nunca; mas, enfim, não me agradaria... Jura de verdade, Cristiano?

-O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até à cousa mais sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita?

Pieguives de lascivo. Saiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquele pudor medroso e incrédulo de Sofia fazia-lhe bem. Mostrava que ela era sua, totalmente sua; mas, por isso mesmo que ele a possuía, considerava que era de grande senhor não se afligir com a vista casual e instantânea de um pedaço oculto do seu reino. E lastimava que o casual tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras vilas do território, antes da cidade machucada pela queda, dariam idéia de uma civilização sublime e perfeita. E ensaboando-se, esfregando a cara, o colo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, enxugando-se, aromando-se Palha imaginava o pasmo e a inveja da única testemunha do desastre, se este fosse menos incompleto.

CAPÍTULO CXLV

FOI POR ESSE TEMPO que Rubião pôs em espanto a todos os seus amigos. Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabeleireiro da Rua do Ouvidor que o mandasse barbear à casa, no outro dia. às nove horas da manhã. Lá foi um oficial francês, chamado Lucien, que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as ordens dadas ao criado.

-Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.

(continua...)

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