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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Mas Sales era (dizia ele) da mais completa ignorância em política.

Que faz então?

Pobre a não poder distrair alguns mil réis das magras despesas diárias, Sales toma metade dos seus livros de Medicina, leva-os a um livreiro da Rua dos Latoeiros, onde ele também morava, e pede-lhe que os receba e que lhe dê em troca algumas obras de Ciência Política.

- Mas que obras prefere? perguntou-lhe o livreiro que era seu freguês.

- Eu sei lá!... respondeu-lhe Sales; dê-me aquelas que são mais procuradas pelos deputados e homens políticos.

O livreiro sorriu-se, deu a Sales o Curso de Política Constitucional de Benjamin Constant e a História da Revolução Francesa, de Thiers.

Sales pôs-se a ler com ardor, e no fim de uma semana escreveu e mandou para a imprensa o seu primeiro artigo político que devia ser publicado no dia seguinte.

O novo publicista quase logo arrependido do que fizera, medroso do fiasco que se lhe afigurava certíssimo, encerrou-se em casa até dois dias depois, em que um amigo lhe apareceu entusiasmado, trazendo-lhe a Aurora Fluminense.

Na sua Aurora, Evaristo Ferreira da Veiga saudava a revelação da mais bela inteligência naquele artigo, em que um jovem escritor se estreara com um triunfo de eloquência e com evidente prova de sérios estudos.

Evaristo, o grande patriota, chefe do partido moderado, era por seu ilustrado talento, pelas suas virtudes e pelo seu exemplar desinteresse o entusiasmador da mocidade.

A apreciação do artigo publicado na Aurora por Evaristo decidiu o destino de Sales Torres Homem, que arrebatado pela vaidade (dizia ele) abandonou a idéia do concurso e a profissão da medicina que pretendia seguir, e dedicou-se todo à imprensa política, e a princípio com a exclusiva lição do Curso de Política Constitucional de Benjamin Constante da História da Revolução Francesa, de Thiers.

Eu creio que nesta revelação da origem do seu pronunciamento, e da sua entrada na vida política Sales exagerava muito, tanto a própria negação a envolver-se nas lutas dos partidos em 1832, Gomo a inverossímil e absoluta ignorância da Ciência Política e tal e tão profunda, que ele nem tinha idéia daquelas duas obras que o livreiro lhe deu; mas é positivo que esse ilustradíssimo varão contava assim a história do quase recrutamento forçado que o levou a jurar bandeira no partido liberal, e a tornar-se homem político.

O livreiro Mongie, que antes de todos merecera receber esta curiosa informação, e que na cidade do Rio de Janeiro de tanta estima foi objeto, nela faleceu depois de poucos anos de florescimento, deixando-lhe lembrança de honrado nome, e parentes que se enraizaram no

Brasil.

Anexo II

Uma loja de cabeleireiro florescia há mais de dezoito anos no n.º 110, entre as ruas dos Ourives e dos Latoeiros, tendo então por emblema a Cabeça de Ouro.

Vendiam-se ali tranças crescentes e faziam-se penteados, mas certamente a loja não era célebre. De súbito mais ou menos todos, e as senhoras principalmente, sem exceção, estavam diante da vidraça da Cabeça de Ouro, e ali se deixavam em contemplação.

E havia justificada razão para isso numa trança de cabelos exposta na vidraça.

A trança era muito vasta, de cabelos finos e de cor castanha, quase pretos, de formosa nuance, e tão longa se estendia, que se mostrava em três lanços ou voltas na vidraça.

Eram cabelos de comprimento extraordinário e de beleza notável; mediam nada menos que dois e meio metros, fora o que deles ficara ornando ainda a cabeça da senhora que, sem dúvida, a seu pesar se privara de tesouro tão singular; deviam, pois, ter sido na cabeça de sua dona cabelos de doze a treze palmos de comprido.

Quando ela os abandonasse soltos, aqueles imensos e formosos cabelos não lhe cairiam até os pés, como os imaginários de uma das mais belas heroinas dos romances de Alexandre Dumas, arrastar-se-iam seis ou sete palmos pelo chão, como estupenda cauda de um manto de madeixas.

Era um prodígio da natureza, e em face do prodígio geralmente se acreditou em artifício, supondo que na trança sutilmente se tinham pendido um aos outros cabelos de muito menor comprimento, como os cabeleireiros muitas vezes o fazem em tranças e crescentes de menor preço. Mas não houve quem descobrisse o artifício.

As senhoras e muitos homens entravam na loja da Cabeça de Ouro, viam, examinavam com ávidos olhos e muito de perto a maravilhosa trança; crescia-lhes, porém, a suspeita de ilusão, porque o zeloso dono defendia o seu precioso tesouro de exames manuais que poderiam prejudicá-lo. Fizeram-se na cidade apostas pró e contra a realidade do comprimento natural daquela trança.

(continua...)

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