Por Eça de Queirós (1925)
elaras, ficava um momento á porta do Hotel, saboreando a entrada larga, o guarda-portão decorativo ; em seguida, ia á Casa Havaneza florir-se com uma camelia, e de boquilha em riste, fazendo vergar a badine, descia o Chiado, errava pela Baixa, dava uma volta no Aterro, n'uma molleza de vadiagem, procurando encontral-a, a Eltcc. Mas todas as mulheres novas lh'a faziam esquecer, voltar-se, com a esperança indefinida de que ia ser amado por esta ou por aquella, impressionadas pela sua figura, pela sua sobrecasaca azul e pela local do Seculo. Dava um olhar distrahido ás vitrines dos livreiros — sentindo sempre, por um momento, o desejo agudo de produzir, vêr-se impresso: voltavam-lhe então vagos desejos de celebridade litteraria, mas o rodar d'uma carruagem de libré, os cortes de sêda n'uma montra, dispersavam-lh'os subitamente, — e abandonava-se ás ambições indefinidas que o agitavam agora, de frequentações illustres, amores fidalgos, assignatura em S. Carlos e uma carruagem da Companhia. Depois, vinha de novo estacionar á porta da Casa Havaneza; e sentia um deleite indefinido em estar alli, immovel, vendo em redor grupos de deputados, de janotas, de empregados, dilatando-se ás emanações intellectuaes e sociaes que lhe pareciam sahir das conversações, dos perfis, das attitudes. Era sempre com uma satisfação vaidosa que, ao ouvir, ás seis horas, a sineta do jantar, ia descendo para o Hotel: já tarde
cahia e aquelle crepusculo de cidade, á hora que precede o gaz, tinha para elle um tom rico, superior, interessante. Da escada do Hotel até á mesa saboreava triumphozinhos — o cumprimento do guarda-livros, o pisar do tapete do corredor, o lustre acceso, os ramos de flores no meio das mesas, o sorriso polido do Padilhão, o adeuzinho com dous dedos do Carvalhosa, o respeito dos creados de gravata branca. Comia com um appetite provinciano c os nomes francezes dos pratos augmentavam-lhes o sabor.
Depois, farto, pesado, com uma vaga voluptuosidade, descia ao Martiñio, olhã,ndo intensamente as mulheres que passavam, recebendo do movimento do Chiado uma vaga excitação.
No café, encontrava geralmente, solitario deante da sua chavena, o sujeito de cabelleira semelhante a estopa negra, o Jaeome Nazareno — o malandro, como dizia Melchior. Arthur olhava-o com insistencia, imaginando-o chefe de sociedades secretas, temido do Rei, vigiado pela policia; aquelle homem, que julgava ser uma força social, cuja vida, de certo, se movia n'um perigo dramatico incessante, attrahia-o com uma sympathia crescente. Ia sentar-sea alguma mesa proxima e espreitava-o por traz d'um jornal desdobrado. A sua attitude isolada, fria, muda, dava-lhe a idéa de planos secretos, de preparativos de revolta, que punham na vida de Lisboa um lado
pittoresco, parisiense, de insurreição e de tragedia.
à noite, ia a S. Carlos. Tinha comprado um binoculo, e para gozar o cumprimento dos porteiros que já começavam a conhecel-o, tomava sempre o mesmo logar, do lado do Rei. De resto, encontrava ás vezes o Saavedra e gostava de lhe apertar a mão publicamente. Depois, procurava-a, a Ella, pelos camarotes. Não a tornara a vêr, mas o canto, as decorações, consolavam-no ; todas as mulheres o impressionavam e amaria qualquer outra de quem recebesse um olhar como aquelle que recebera da senhora do vestido de xadrez, na estação d'Ovar ; ós vezes, acontecia que alguma senhora, n'um camarote proximo, attrahida pelo seu binoculo insistente, reparava n'el]e, fixando-o um momento com curiosidade : Arthur exaltava-se logo, entrevendo encontros providenciaes, uma paixão dramatica, lagrimas, poemas ; depois, não pensava mais n'isso : ella não tornava a olhar— e elle refugiava-se de novo na preoccupacão da sua desconhecida, como se o amor fosse um complemento tão necessario á frequentagio da opera, como a casaca ou a flôr na lapella.
Quando entrava, á noite, no seu quarto, vinha-lhe uma tristeza molle : a musica, as luzes, a presença das senhoras, excitavam-lhe os nervos ; o rolar dos trens, as janellas alumiadas do restaurante Silva, davam-lhe idéas de ceias, de rendez-voue
nocturnos, e desconsolava-se da sua vida esteril, desejando amores fidalgos e orgias sonoras. Se tivesse um titulo ! Se ao menos fosse camarista do Rei ! E passeava pelo quarto, de casaca, retardando o momento de a despir, como se ella representasse a encarnação da vida social que o captivava.
Certa manhã, descendo tarde para o almoço, encontrou na sala de jantar Meirinho, que de madrugada chegára do Porto. Viram-se com jubilo. Que tinha elle feito, o amigo Arthur ? Tinti'a, visto o maganão do Melchior ? Tinha-se divertido
Arthur queixou-se vagamente « de ter estado um bocado só . . .
— Ah, mas agora estou eu ! — exclamou Meirinho affectuosamente. Pareceu reparar com satisfacão na toilette mais correcta d'Arthur. Affirmou-lhe que estava um janota » —e julgando-o de certo bastante bem vestido para se relacionar, aconselhou-lhe que se fizesse socio do Gremio. E se elle quizesse levava-o a casa de D. Joanna Coutinho ! Ella teria muito gosto !
Arthur fez-se rubro de alegria. E reconhecido, interessou-se pela jornada de Meirinho. Muito fa• tigado de certo?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.