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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Uma manhã mesmo os empregados da administração (que era então no Largo da Sé) gozaram muito, observando da sacada os dois padres que passeavam no terraço ao tépido sol de Maio. O senhor administrador, - que passava as horas da repartição namorando com um binóculo, por trás da vidraça do seu gabinete, a esposa do Teles, alfaiate - começara subitamente a dar gargalhadas á janela: o escrivão Borges correu logo, de pena na mão, à varanda, a ver de que ria sua senhoria, e, muito divertido, a fungar, chamou à pressa o Artur Couceiro que estava copiando, para estudar à guitarra, uma canção da Grinalda; o amanuense Pires, severo e digno, aproximou-se, carregando para a orelha o seu barretinho de seda, com horror às correntes de ar; e em grupo, de olho arregalado, observavam os dois padres, que tinham parado à esquina da igreja. Natário parecia excitado; procurava decerto persuadir, abalar o padre Silvério; e em bicos de pés, plantado diante dele, agitava freneticamente as mãos muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do braço, arrastou-o ao comprido do terraço lajeado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto largo e desolado, como atestando a perdição possível dele, da Sé ao lado, da cidade, do universo em redor; o bom Silvério, com os olhos muito abertos, parecia apavorado. E recomeçaram a passear. Mas Natário exaltava-se; dava recuões bruscos, atirava estocadas com um longo dedo ao vasto estômago de Silvério, batia patadas furiosas nas lajes polidas; e de repente, de braços pendentes, mostrava-se acabrunhado. Então o bom Silvério falou um momento com a mão espalmada sobre o peito; imediatamente, a face biliosa de Natário iluminou-se; pulou, bateu no ombro do colega palmadinhas de muito júbilo, - e os dois sacerdotes entraram na Sé, chegados e rindo baixinho.

- Que patuscos! disse o escrivão Borges, que detestava sotainas.

- Aquilo tudo é a respeito do jornal, disse Artur Couceiro, vindo retomar o seu trabalho lírico. O Natário não sossega enquanto não souber quem escreveu o Comunicado; disse-o ele em casa da S. Joaneira... E a coisa pelo Silvério vai bem, que é o confessor da mulher do Godinho.

- Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o ofício que compunha, remetendo para Alcobaça um preso - que ao fundo da saleta, entre dois soldados, esperava sobre um banco, prostrado e embrutecido, com uma face de fome e as mãos em ferros.

•••

Dai a dias tinha havido na Sé o Ofício de corpo presente pelo rico proprietário Morais, que morrera dum aneurisma, e a quem sua esposa (em penitência decerto dos desgostos que lhe dera com a sua afeição desordenada por tenentes de infantaria), estava fazendo, como se disse, "exéquias de pessoa real". - Amaro desvestira-se, e na sacristia, à luz dum velho candeeiro de latão, escrevia assentos atrasados, quando a porta de carvalho rangeu, e a voz agitada de Natário disse:

- Ó Amaro, você está aí?

- Que temos?

O padre Natário fechou a porta, e atirando os braços para o ar:

- Grande novidade, é o escrevente!

- Que escrevente?

- O João Eduardo! É ele! É o liberal! Foi ele que escreveu o Comunicado!

- Que me diz você? fez Amaro atônito.

- Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escrito pela letra dele. O que se chama ver! Cinco tiras de papel!

Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natário.

- Custou, exclamou Natário. Custou, mas soube-se tudo! Cinco tiras de papel! E quer escrever outro! O Sr. João Eduardo! O nosso rico amigo Sr. João Eduardo!

- Você está certo disso?

- Se estou certo! Estou a dizer-lhe que vi, homem!

- E como soube você, Natário?

Natário dobrou-se; e com a cabeça enterrada nos ombros, arrastando as palavras:

- Ah, colega, lá isso... Os comos e os porquês... Você compreende... Sigillus magnus!

E com uma voz aguda de triunfo, a largos passos pela sacristia:

- Mas ainda isto não é nada! o Sr. Eduardo, que nós víamos ali na casa da S. Joaneira, tão bom mocinho, é um patife antigo. É o intimo do Agostinho, o bandido da Voz do Distrito! Está metido na redação até altas horas da noite... Uma orgia, vinhaça, mulheres... E gaba-se de ser ateu... Há seis anos que se não confessa... Chama-nos a canalha canônica... É republicano ... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!

Amaro, escutando Natário, arrumava atarantadamente, com as mãos trêmulas, papéis no gavetão da escrivaninha.

- E agora?... perguntou.

- Agora? exclamou Natário. Agora é esmagá-lo!

Amaro fechou o gavetão, e, muito nervoso, passando o lenço pelos lábios secos:

- Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar agora com um homem desses... Um perdido!

Os dois padres, então, olharam-se fixamente. No silêncio, o velho relógio da sacristia punha o seu tiquetaque plangente. Natário tirou da algibeira dos calções a caixa do rapé, e com os olhos ainda fixos em Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:

- Desmanchar-lhe o casamentozinho, hem?

- Você acha? perguntou sofregamente Amaro.

(continua...)

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