Por Eça de Queirós (1900)
No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonçalo acabava de se lavar, de se escovar, quando Barrolo se precipitou pelo corredor, esbofado, sôfrego - e atrás dele Gracinha, ofegante também, desapertando nervosamente as fitas escarlates do chapéu. Desde a tarde em que Barrolo "presenciara com os olhos bem acordados!" a palestra de Gonçalo e de André na varanda do Governo Civil - fervera nele e em Gracinha uma impaciência desesperada por penetrar os motivos, a encoberta história daquela reconciliação surpreendente. Depois a fuga de Gonçalo na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhais; a repentina jornada do Cavaleiro a Lisboa; o silêncio que sobre aquele caso se abatera mais pesado que uma tampa de ferro quase os aterrou. Gracinha à noite, no Oratório, murmurava através das rezas distraídas: - "Oh, minha rica Nossa Senhora, que será?" - Barrolo não ousara correr à Torre; mas até sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe aparecia enorme, crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as janelas dos Cunhais de onde ele a repelia com o cabo de uma vassoura... E eis agora Gonçalo e André que entram na cidade a cavalo, muito serenamente, ambos de chapéu de palha, como companheiros constantes recolhendo dum passeio!
Logo à porta do quarto, Barrolo atirou os braços, rompeu aos brados:
- Então que tem sido tudo isto?... Não se fala noutra coisa!... Tu com o André!
Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas do chapéu, só balbuciava:
- E nem vens, nem escreves... Nós com tanto cuidado...
E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o "Mistério" , com a toalha ainda nas mãos:
- Uma coisa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena morreu, como vocês sabem. Ficou vago o círculo de Vila-Clara. E um círculo por onde só pode sair um homem da terra, com propriedade, com influência. O governo imediatamente me mandou perguntar, pelo telégrafo, se eu me desejava propor... Ora eu, no fundo, estou de bem com os Históricos, sou amigo do José Ernesto... Estimava entrar na Câmara... Aceitei.
O Barrolo esmagou a coxa com uma palmada triunfal:
- Então era certo, caramba!
O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mãos:
- Aceitei, está claro, com condições; e muito fortes. Mas aceitei... Neste caso, como vocêssabem, convém que o candidato se entenda com o Governador Civil. Eu, ao princípio, não queria renovar relações. Instado porém, muito instado de Lisboa, e por considerações superiores de Política, consenti nesse sacrifício. Nas dificuldades em que se encontra o país todos devem fazer sacrifícios. Eu fiz esse... O André, de resto, foi muito amável, muito afetuoso. De sorte que estamos outra vez amigos. Amigos políticos: mas muito bem, muito lealmente... Almocei hoje com ele em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde linda!... Enfim renasceu a antiga harmonia. E a eleição está segura.
- Venham de lá esses ossos! - berrou o Barrolo, transportado.
Gracinha terminara por se sentar à borda do leito, com o chapéu no regaço, enlevada para o irmão, num silencioso enternecimento em que os seus doces olhos se umedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera do abraço do Barrolo, dobrava a toalha com um vagar distraído:
- A eleição está segura, mas precisamos trabalhar. Tu, Barrolo, tens de conversar também como Cavaleiro. Já combinei. Amanhã no Governo Civil, às duas horas. É necessário que vocês se entendam por causa dos votos da Murtosa...
- Pronto, menino! o que vocês quiserem! Votos, dinheiro...
E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com água-de-colônia que pingava no soalho:
- Desde o momento em que eu me reconciliei com o André, tudo acabou. Tu, Barrolo,imediatamente te reconcilias também...
Barrolo quase pulou, no seu deslumbramento:
- Pois está claro! E ainda bem, que eu gosto imensamente do Cavaleiro! Até sempre teimavacom Gracinha... "Oh senhores, esta tolice, por causa da Política!..."
- Bem! - concluiu o Fidalgo. - A Política nos separou, a Política nos reúne... E o que se chama ainconstância dos Tempos e dos Impérios.
E agarrou Gracinha pelos ombros, com um beijo brincalhão, estalado em cada face:
- A tia Arminda? Boa, da escaldadela? Já voltou às façanhas de Leandro o Belo?
Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se não desfizera, a envolvia toda em claridade e doçura:
- A tia Arminda está melhor, já anda. Perguntou por ti... Mas, ó Gonçalo, tu decerto queresjantar!
- Não, almocei tremendamente em Corinde... Vocês, como jantaram à hora antiga da tiaArminda, ceiam, hem? Então logo ceio... Agora apenas uma chávena de chá, muito forte!
Gracinha correu, no alvoroço de servir o herói querido. E pela escada, descendo com Barrolo que o contemplava, o Fidalgo da Torre lamentou os seus sacrifícios:
- É verdade, menino, é uma maçada... Mas que diabo! todos devemos concorrer para tirar o paísdo atoleiro!
Barrolo, maravilhado, murmurava:
- E sem dizeres nada... Assim à capucha! Assim à capucha!...
- E agora outra coisa, Barrolo. Amanhã, no Governo Civil, deves convidar o André a jantar...
- Com certeza! - gritou o Barrolo. - Jantar de estrondo?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.