Por Machado de Assis (1876)
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas, dentro de alguns instantes, era alguma coisa mais. Era a primeira revelação, tácita mas consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum deles procurara esse contato de suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles disseram um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se pode repetir ao ouvido; confissão misteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao céu cabia ouvir, porque não eram vozes da terra, nem para a terra as diziam eles. As mãos, de impulso próprio, uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração deteve essa fusão de duas criaturas nascidas para formar uma existência única.
O vento tornara-se mais rijo; uma lufada os despertou, em má hora, porque há sonhos que deviam acabar na realidade do outro século. Estácio ergueu-se; sacudiu valorosamente o torpor da felicidade, e reassumiu o papel que o pai lhe assinara ao pé de Helena. Esta desviou os olhos e cravou-os na água, fascinada e absorta. A idéia do suicídio roçaria deveras sua asa invisível pela fronte da moça? Estácio foi a ela, pegou-lhe nas mãos e convidou-a a sair dali.
Entremos, disse ele pela terceira vez, olhe que vai chover.
Helena deixou-se levantar; um calafrio percorreu-lhe o corpo todo, e as mãos, que o moço ainda tinha entre as suas, estavam muito mais quentes que o natural.
Ande repousar, continuou Estácio; pode adoecer, e não tem direito para tanto; nossa afeição não o consentirá nunca. Vamos...
Amar-me-ão sempre? perguntou Helena.
Oh! sempre!
Impossível! Há uma voz no fundo de seu coração, que lhe dirá, de quando em quando, esta triste palavra: aventureira!
Helena!
Não posso ser outra coisa a seus olhos, prosseguiu a moça, tristemente. Quem o convencerá de que a declaração de seu pai não foi obtida por artifício de minha mãe?. Quem lhe dará a prova de que, cedendo aos rogos de meu pai, não fiz mais do que executar um plano preparado já? São dúvidas que lhe hão de envenenar o sentimento e tornar-me suspeita a seus olhos. Resista quem puder; é-me impossível encarar semelhante futuro!
Helena caíra ofegante no banco. Estácio falou-lhe com abundância e ternura; jurou-lhe que sua família era incapaz da mínima suspeita; pediu-lhe por seu pai que não julgasse mal deles. Ela sorriu, mas foi um sorrir de incrédula.
Grossos pingos de chuva começavam a rufar nas árvores. Estácio pegou na mão de Helena para conduzi-la a casa. A moça fugiu-lhe, indo colocar-se alguns passos adiante, onde a chuva lhe caía mais em cheio na cabeça nua e no corpo levemente coberto. Quando Estácio, desvairado de terror, correu para ela, Helena afastou-se dele; mas nem seus pés o poderiam vencer nunca, nem lho permitiam agora as forças quebradas por tantas e tão profundas comoções. Ele alcançou-a; estendeu o braço em volta da cintura da moça, dizendo:
Que capricho é esse? Vamos embora; eu quero que venha comigo para dentro.
Ao sentir o braço de Estácio, Helena estremeceu e fez um movimento para arredá-lo de si; mas a fraqueza traiu-lhe o pudor. Ela fitou no moço uns olhos de corça moribunda; as pernas fraquearam, e o corpo esmorecido iria a terra, se lho não sustivessem as mãos de Estácio.
Deixe-me morrer! murmurou ela.
Não! bradou o mancebo.
Com um gesto rápido, tomou nos braços, estendido, o corpo exausto de Helena, e caminhou na direção da casa. O vento flagelava-os; a chuva, que subitamente caía a jorros, alagava-os sem misericórdia; ele ia andando, o mais depressa que lhe permitia o peso de Helena, cuja cabeça pendia para a terra, e de cujos lábios brotavam trechos soltos de frases sem sentido.
D. Úrsula viu entrar aquele doloroso espetáculo; correu a receber Helena, que Estácio depositou em um sofá, donde foi transferida ao leito. A febre, já começada antes dela sair, tomara conta enfim da pobre moça. Um médico foi chamado à pressa; o Padre Melchior correu por baixo d’água até à casa de Estácio. As primeiras horas foram de ansiedade e susto; o estado da doente era grave; assim o disse o médico; assim o tinham já sentido os corações amigos.
D. Úrsula pagou naquela ocasião os serviços que, em caso análogo, lhe prestara Helena, mau grado o peso dos anos, que lhe não permitiam longas vigílias nem aturado trabalho. Velou a boa senhora à cabeceira da enferma durante essa primeira noite de incerteza e terror. Mendonça, que ali fora sem suspeitar nada, porque a doença que lhe disseram ter padecido Helena, supunha ele ser passageira, e em todo caso, estar quase extinta, Mendonça recebeu essa triste notícia com a morte no coração.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.