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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

D'ahi a póuco, na tipoia que batia a trote para o Hespanhol, Arthur resumia o seu dia. Fôra maravilhoso : fizera fato, jantara no Universal, conhecera deputados, o baixo Sarrotini, o bom Meirinho, vira-a — a Ella, tão linda no luxo da opera, entre as harmonias divinas da Africana, e finalmente, pela local, entrava na celebridade ! Sentia-se agora em Lisboa como no seu elemento natural ; a vida ser-lhe-ia facil, gem abalos, luminosa : os Esmaltes e Joias tornal-o-iam illustre ; pelo Meirinho conhecel-a-ia, a Elta, amar-se-iam ; teria outros dias divinos, com bons jantares, uma opera escutada de casaca nas cadeiras, e Dita, do camarote, sorrir-lhe-ia d'um modo disfarçado e languido. A tipoia parou, — Quanto é ?

O cocheiro saltou da almofada:

—O que V. Ex. 6 quizer.

Arthur, n'um movimento de generosidade, de reconhecimento supersticioso ao destino, deu-lhe dez tostões.

—- Muito agradecido a V. Ex. a, snr. marquez ! No seu quarto, foi direito ao espelho : achou-se bonito, com um ar prospero. Espreguiçou-se, n'uma voluptuosa confiança na vida. E d'ahi a pouco, sonhava que passeava com Ella, n'um bosque sagrado, junto d'um templo indio : dos tamarindos em flôr vinha o cheiro forte do pello fulvo das feras ; um fakir, nú, descarnado, ankilosado, contemplava philosophicamente o umbigo e tigres familiares rondavam, com a lingua pendente e vermelha, como pedaços de sangue coalhado,

Arthur ao outro dia installou-se no Hotel Universal. Arrumou a sua escassa roupa na commoda, dispoz sobre a mesa, coberta d'um velho panno de pellucia, cadernos de papel branco e pennas novas, e, junto da janella aberta, enterrado n'uma poltrona de mollas rangentes, saturou-se da sensação de luxo que lhe davam os reps azues, o alto espelho, os cortinados da cama, e o Chiado, em baixo, com o seu movimento de rua rica: aquelles confortos traziam-lhe como que um ennobrecimento de toda a sua personalidade.

Sentia comtudo um remorso indefinido, pensando na pobreza em que as tias viviam ; mas, que diabo, não era com o dinheiro d'ellas que elle se regalava de bons jantares e pagava aquelle quarto caro. E depois, esse luxo era-lhe necessario paraa

sua profissão litteraria, como um meio de reclame e d'estudo social.

Sentia-se todavia um pouco só. Meirinho fôra para o Porto, Melchior não apparecia e Arthur não tinha voltado á redacção, porque, julgando-se conhecido desde que fôra publicada a local do Seculo, não queria mostrar-se sem o seu fato novo. Occu„ pou-se então em completar os Esmaltes e Joias : tinha um plano de poesias novas, suscitado pela impressão que lhe fizera Lisboa — a Nova Babytonia, e o Galeão, em que queria versificar os vagos enthusiasmos do tempo das Viagens e das Descobertas, inspirados pela musica da Africana. Mas estava sem veia b. As comidas davam-lhe um languido bem estar enfartado que lhe entorpecia a imaginacão, e o rumor do Chiado, a vaga sussurração da cidade, traziam-no n'uma distracção enleada. Com a janella aberta ao dia esplendido d'um inverno luminoso, fumava, scismando em passeios, soirées a que assistiria, futuras criticas dos Esmaltes e Joio, applausos de theatro, gravatas que ambicionava e com preguiça de trabalhar no seu livro, ficavase a contemplar, n'uma vaga e distante fulgura- cão, a celebridade que elle lhe traria.

Por esse tempo, recebeu uma carta do Rabecaz que o exaltou : a noticia do Seculo — de que elle remettera para Oliveira seis exemplares — tinha feito sensacio na Villa. Ao que parecia, aquelles

mesmos que nunca lhe tinham fallado, affirmavam agora ter-lhe sempre o genio e antevisto os altos destinos. O Vasco da botica lia a local a todos os freguezes « para que soubessem que especie d'homem era o seu ajudante O Carneiro gabara-se na Assembleia de que lhe administrava a fortuna. «E eu » — concluia o Rabecaz — conheço Lisboa e a rapaziada, todos os dias digo bem alto a esta cambada, que você, e é a minha convicção, vai a ministro ! »

Como se aquella gloria parcial d'Oliveira tivesse saciado por algum tempo a sua gula de celebridade, abandonou todo o trabalho. O Victorino, muito ins• tado, urgido, mandara o fato ; tinha comprado uma boquilha d'espuma que representava uma cabeça de cocotte, e, como um cavalleiro impaciente d'usar as suas armas, envergou a sobrecasaca nova, e começou a gozar a rua A sua vida tinha agora grandes doguras : o seu melhor momento era, depois do almoço, quando se encostava á janella, a fumar o seu charuto : os dias estavam muito claros, com um pó dourado de luz; no Chiado, os pregões cantavam, os trens rolavam, e elle, no indolente entorpecimento da omelette e do bife, olhava do alto, com a pupilla humida de bem-estar, a vida em baixo reinar, mover-se, e atirava para o céu luminoso baforadas brancas do charuto caro. Depois, vestia-se com cuidado, encharcava-se d'agua de Colonia, e de luvas



(continua...)

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