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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Helena pegou na carta com sofreguidão, leu-a de um lance d’olhos. O gemido que lhe rompeu do coração mostrou bem a ferida que acabava de receber. O padre acolheu-a lacrimosa e esvaecida em seus braços; disse-lhe palavras de conforto e de esperança. Nos primeiros minutos, Helena nada pôde ouvir; o golpe ensurdecera a alma. Melchior fê-la sentar ao pé de si; ela obedeceu sem consciência. Após alguns minutos de silêncio e concentração, a moça dirigiu a palavra ao padre e agradeceu-lhe a caridade. Depois referiu-lhe os acontecimentos de sua infância, os mesmos que o capelão ouvira. A sagacidade natural do espírito cedo lhe fizera ver que a posição de sua mãe não era a mesma das outras mães: essa descoberta, porém, não teve outra virtude mais que comunicar ao amor de filha uma intensidade e energia capazes de afrontar os mais fortes obstáculos, como se ela quisesse reunir em si toda a soma de afetos e respeitos que a sociedade afiança às situações regulares. Melchior ouviu-a comovido; nutrido da medula do Evangelho, reconheceu um efeito da graça divina nesse amor imaculado, que valia por todas as absolvições da terra. Ele a aplaudiu e confortou; falou-lhe do futuro, do carinho de sua família, — sua, a despeito de tudo; enfim da obrigação em que ela estava de corresponder a tanta confiança.

Talvez Helena, em sua razão, correspondesse aos conselhos de Melchior; mas a razão é o que menos a dirigia naquelas circunstâncias aflitivas. Ela deixou o padre para recolher-se aos aposentos. Quando D. Úrsula ali foi, meia hora depois, achou-a profundamente abatida; a violência da crise passara. A linguagem que lhe falou foi maternal, ungida de amor e perdão; Helena ouviu-a agradecida, mas um sorriso descorado e sem convicção lhe entreabria os lábios. Supunha ler comiseração onde havia afeto e respeito, e o orgulho rebelava-se de inspirar o único sentimento que a consciência lhe dizia merecer.

As instâncias de D. Úrsula para que Helena se alimentasse foram inúteis; ela apenas recebia o que bastava para não sucumbir à fome. A companhia repugnava-lhe; assim, poucas vezes a viram desde os dias que se seguiram aquela funesta manhã. Mendonça não conseguiu mais do que os outros. A família teve o cuidado de anunciar que Helena se achava enferma. A aflição do noivo foi grande; mas todos buscaram tranqüilizá-lo. Nada havendo transpirado do acontecimento, fácil foi sustentar aquela explicação.

Melchior encomendara muito à família que vigiasse a moça, cujo espírito lhe parecia atrevido e tenaz; ele receava que Helena ou fugisse de casa, ou recorresse a algum ato de desespero. O mesmo padre desvelou-se em trazer a alma de Helena ao sentimento da resignação. A autoridade do caráter religioso, a influência que ele tinha no espírito de Helena, eram armas poderosas, temperadas com o amor verdadeiro e paternal que o ligava à donzela. Nada poupou; mas tais esforços não tiveram mais fruto que os da família. Helena mal podia tolerar a situação.

Uma vez, como ela descesse à chácara, saiu Estácio a procurá-la, não a encontrando senão ao cabo de alguns minutos. Achou-a ao pé do tanque, no lugar em que lhe falara poucos dias antes, sentada no mesmo banco de pau. Vendo-o, estremeceu; ele aproximou-se, contente de a haver encontrado enfim. O dia estava feio; grossas nuvens negras pejavam o ar, túmidas de temporal próximo. Estácio convidou-a a recolher-se.

Deixe-me estar aqui um instante mais, respondeu ela.

Dois minutos apenas.

Sentou-se ao pé dela e ficaram calados. Helena tinha uma taquara na mão; Estácio quis tomar-lha; ela arremessou-a para longe. Ergueu-se então o moço e foi buscá-la; só então viu que estava molhada até certa altura; calculou que seria o fundo do tanque. O tanque era raso; não poderia dar a morte; mas, a suspeita de que Helena não recuaria diante do suicídio, aterrou naturalmente o espírito de Estácio. Parecendo-lhe que a causa não comportava o efeito, perguntou a si mesmo se os sucessos daqueles dias não teriam velado a razão da moça. Sentou-se de novo e falou-lhe com brandura.

Ao escutá-lo, sentiu Helena como uma ressurreição de outras horas, que ela julgava escoadas para sempre; um sorriso lhe animou os lábios sem cor, ao passo que os olhos doridos e murchos pareciam reviver de um resto de luz. Estácio falou-lhe de si, da tia, do padre e de Mendonça, dos próximos casamentos, da felicidade futura. Depois insistiu com ela para que entrasse. Uma brisa mais forte começava a agitar as árvores, e a tempestade ameaçava cair de repente.

Ainda não, disse a moça; alguns minutos mais.

Mas pode adoecer...

Talvez, se todos quiserem a minha saúde. Há criaturas tão malfadadas que aqueles mesmos que as desejam fazer venturosas não alcançam mais do que preparar-lhes o infortúnio. Tal foi o meu destino. Seu pai e minha mãe não tiveram outro pensamento; meu próprio pai foi levado do mesmo impulso, quando me obrigou a ser cúmplice de uma generosa mentira. Agora mesmo que ele me foge, com o fim único de me não tolher a felicidade, arranca-me o último recurso em que eu tinha posto a esperança...

Helena! interrompeu Estácio. O último, repetiu a moça.

Esvaíra-se-lhe o sorriso, e o olhar tornara a ser opaco. Estácio teve medo daquela atonia e concentração; travou-lhe do braço; a moça estremeceu toda e olhou para ele.

(continua...)

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