Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Arthur examinava preguiçosamente os camarotos, quando, de repente, na primeira ordem á esquerda, a viu, a Ella, á senhora do vestido de xa drez ! Que surpreza ! O binoculo tremia-lhe na mão. Estava com outras senhoras, uma d'ellas, d'edade, de luneta d'ouro, e de certo, até ahi, se conservara no fundo do camarote. Com as costas para o palco, voltava o rosto levemente, olhando em baixo a plateia: Arthur reparou no seu vestido, escuro, côr de vinho ; a luz contornava docemente a adorave] redondeza do hombro e a manga punha-lhe em redor do cotovello um fôfo de rendas brancas ; com a mão nua onde reluziam auneis, hatia no velludo do rebordo, devagar, distrahidamente, como n'um teclado de piano. Toda a fadiga, toda a melancolia d'Arthur desappareceram. As cousas ama bientes adquiriram um encanto inesperado : uma luz mais viva sabia do lustre; já se não sentia iso•

lado nem obscuro ! Ella de certo se lembraria, repetiria o dôce ciliar da estação d'Ovar. Esse olhar, queria attrahil-o : fitava-a com intensidade com magnetismo ; tinha vontade de bater as palmas, soltar um grito. Empurrou violentamente uma cadeira: ao lado um velhote que dormitava, encarou-o, estremunhado, com uns olhinhos subitamente arregalados, Sentou-se então, desesperado. Ella ago- ra fallava para o fundo do camarote e elle via o seu catogan, onde reluzia alguma cousa de vermelho, flÔr ou enfeite.

Tinham supprimido o duetto das damas panno ergueu-se, mostrando a negra mancenilheira, n'uma praia aspera, junto a um mar triste, por uma noite de lua cheia. As rabecas, em unisono, romperam os 16 compassos.

Aquella harmon.ia, que lhe pareceu sobrenatural, mystica, immobilisou-o : invadia-o uma sensacão estranha, como se os arcos das rabecas lhe tocassem sobre os nervos. Ella, agora, olhava para o palco com o binoculo de marfim, e aquella musica, que ora parecia a Arthur a expressão do vento e do mar n'uma região desolada, ora o queixume transcendente d'uma grande alma ferida, dava-lhe um delirio d'amor poetico : todo o seu ser sensivel se lançava, n'uma necessidade d'adoração, para aquelle camarote da primeira ordem ; desfallecia á esperança de lhe beijar as mãos ; quereria saber-lhe o nome; decidia immortalisal-a n'um poema e a sua alma estendia-se pelas longas arcadas das rabecas, toda desfallecida de paixão e dolorida de saudade.

Celina, entrando lugubremente sob os seus longos crepes, reteve-lhe o olhar um momento. Quando se voltou, o camarote estava vazio e um sujeito de casaca que se adiantara sentou-se no logar d'Ella' bocejou discretamente e ficou immovel com a cabeça apoiada ao tabique, catando os pellos do bigode . . .

E Melchior não voltara, e elle não pudera saber quem Ella era !

— Todo o encanto do theatro desappareceu e o canto de Celina, a instrumentação, pareceram-lhe muito distantes, recuados infinitamente para um fundo vago e luminoso.

Um sujeito tocou-lhe no braço :

— Olhe que o chamam.

Era Melchior que da portinha lhe fazia gestos impacientes. Tinha d'ir á redacção, estava-se a fazer tarde Estivera no palco, ao cavaco.

Sailiram. Os trens punham no largo escuro fia leiras de luzes avermelhadas ou pallidas ; grupos recolhiam, onde se destacavam as capas brancas das senhoras. No céu, muito negro, havia uma scintillação d'estrellas. Melchior assobiava os .Z6 compassos e Arthur, ao pé, calado, com a gola do paletot erguida, ia pensando em cousas vagas que faria para revelar o seu talento, conhecel-a a Elta, fallar-lhe, ser illustre como Meyerbeer, bem vestido como o Visconde. Reminiscencias das melodias do bailado passavam-lhe no cerebro, via a lua cheia luzir sobre o mar triste, por traz da mancenilheira . . .

— Então, gostou-se, hein ? — perguntou Melchior.

— Se lhe parece !

Na saleta da redacção, sob o bico de gaz, um sujeito de barba grisalha revia as provas. Ergueu os oculos para a testa, fixou Arthur, rosnou um otá e depois de tomar uma pitada :

— Ha mais alguma cousa a mandar, Melchior ? Melchior pareceu ter uma idéa, olhou Arthur, sorriu, e sentando-se com o chapéu para a nuca, molhou a penna, meditou com os cotovellos na mesa, os olhos cerrados, cofiando o bigode com a mão gorda e tremula : escreveu, riscou, entrelinhou e por fim, depois de pigarrear

— Ora ouça lá, Arthur. — Leu : — Chegou á Capital e acha-se hospedado no Hotel Universal, o nosso amigo e esperançoso poeta Arthur Corvello » — Arthur fez-se escarlate — que brevernente vae publicar o seu formoso livro Esmaltes e Joias. Algans dos trechos que ouvimos farão por certo sensacão » — Hein ?

Arthur, com a voz tomada, bateu apenas no hombro de Melchior repetidamente :

— Obrigado, obrigado !

O revisor olhava-o pelo canto do olho, cynicamente.



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6465666768...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →