Por Eça de Queirós (1875)
- Primo: o colega Brito mudado da freguesia de Amor para ao pé de Alcobaça, para a serra, para o inferno...
- Que me diz? exclamou a S. Joaneira.
- Obras do liberal, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe tempo a meditar o Comunicado do Distrito, mas por fim saiu-se! O pobre Brito lá vai esfogueteado!...
- Sempre é o que se dizia da mulher do regedor, murmurou a boa senhora.
- Olá! interrompeu severamente o cônego. Então, senhora, então! Isto aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, colega Natário.
- Secundo, continuou Natàrio: é o que eu ia dizer ao colega Dias... O senhor chantre, em vista do Comunicado e de outros ataques da imprensa, está decidido a "reformar os costumes do clero diocesano", palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam sumamente os conciliábulos de eclesiásticos e de senhoras... Que quer saber o que é isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Enfim, palavras textuais de sua excelência - está decidido a limpar as cavalariças de Augias!... - o que quer dizer em bom português, minha senhora, que vai andar tudo numa roda-viva.
Houve uma pausa consternada. E Natário, plantado no meio da saleta com as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:
- Que lhes parece esta à última hora, hem?
O cônego ergueu-se pachorrentamente:
- Olhe, colega, disse, entre mortos e feridos há-de escapar alguém. E a senhora não se fique ai com essa cara de Mater dolorosa, e mande servir o chá, que é o importante.
- Eu lá disse ao padre Saldanha... - começou Natário perorando.
Mas o cônego interrompeu-o com força:
- O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós às torradinhas, e lá em cima, diante dos rapazes, caluda.
O chá foi silencioso. O cônego, a cada bocado de torrada, respirava afrontado, franzia muito o sobrolho: a S. Joaneira, depois de falar da D. Maria da Assunção que estava mal do catarro, ficou toda murcha, com a testa sobre o punho. Natário, a grandes passadas, fazia uma ventania na sala com as abas do casacão.
- E quando vem essa boda? exclamou ele, estacando subitamente diante de Amélia e do escrevente, que tomavam o chá sobre o piano,
- Um dia cedo, respondeu ela sorrindo.
Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu cebolão:
- São horas de me ir chegando à Rua das Sousas, minhas senhoras, disse com uma voz desalentada.
Mas a S. Joaneira não consentiu. Credo, estavam todos monos como se estivessem de pêsames!... Que fizessem um quino para espairecer... - O cônego porém, saindo do seu torpor, disse com severidade:
- Está a senhora muito enganada, ninguém está mono. Não há razões senão para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?
João Eduardo mexeu-se, sorriu:
- Eu cá por mim, senhor cônego, não tenho razão senão para estar feliz.
- Pois está claro, disse o cônego. E agora Deus lhes dê boas-noites a todos, que eu vou quinar para vale de lençóis. E o Amaro também.
Amaro foi apertar silenciosamente a mão de Amélia, - e os três padres desceram calados.
Na saleta a vela ainda ardia com um morrão. O cônego entrou a buscar o seu guarda-chuva; e então, chamando os outros, cerrando devagarinho a porta, disse-lhes baixo:
- Eu, colegas, não quis assustar há pouco a pobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses falatórios... É o diabo!
- É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natário, abafando a voz.
- É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.
Estavam de pé no meio da saleta. Fora o vento uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o osso frontal da caveira: e em cima Amélia cantarolava a Chiquita.
Amaro recordava outras noites felizes em que ele, triunfante e sem cuidados, fazia rir as senhoras, - e Amélia, gorjeando Ai chiquita que si, revirava-lhe olhares rendidos...
- Eu, disse o cônego, os colegas sabem, tenho que comer e beber, não me importa... Mas é necessário manter a honra da classe!
- E não carece dúvida, acrescentou Natário, que se há outro artigo e mais falatórios, estala com certeza o raio...
- Olha o padre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!
Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do escrevente.
Amaro rosnou com rancor:
- Grande galhofa lá em cima!...
Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natário duma chuva miudinha.
- Olha que noite! exclamou furioso.
Só o cônego tinha guarda-chuva: e abrindo-o devagar:
- Pois meninos, não há que ver, estamos em calças pardas...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.