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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Pois certamente, filho! Amanhã mesmo precisamos conversar com o Barrolo, combinarmos,por causa dos votos da Murtosa!... Meu querido Gonçalo, não podemos adormecer. Não é pelo Júlio, é pelo Pita!

- Bem! bem! - acudiu logo Gonçalo, assustado.

- Parto para Oliveira.

- Porque então - continuava André - vamos ambos logo, a cavalo. É um bonito passeio pelosFreixos, sempre com sombra... Tens talvez de mandar à Torre, por causa de roupa...

Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de malas, conservava nos Cunhais um bragal inteiro, desde a chinela até a casaca. E entrava em Oliveira como o filósofo Bias em Atenas - com uma simples bengala e paciência infinita...

- Delicioso! - declarou André. - Fazemos então logo a nossa entrada oficial em Oliveira. É ocomeço da campanha.

O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos das Lousadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão aparatosamente fraternal. E, quando o Cavaleiro recomendou ao Mateus que mandasse aprontar o Rossilho e a égua do Fidalgo para as quatro horas e meia, Gonçalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes partissem às sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira despercebidamente, esbatido no crepúsculo.) Mas André protestou:

- Não, é uma seca, chegamos à noite. Precisamos entrar com solenidade, à hora da música no Terreiro... Às cinco, hem?

E Gonçalo, vergando os ombros sob a Fatalidade:

- Pois sim, às cinco.

Na sala de jantar, esteirada, com denegridos painéis de flores e frutas sobre um papel vermelho imitando damasco, André ocupou a veneranda cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das pratas, a frescura das rosas numa floreira de Saxe revelavam os desvelos da prima Jesuína que, com dor de entranhas nessa manhã, não se vestira, almoçava no quarto. Gonçalo louvou aquela elegante ordem, tão rara numa casa de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuína na Torre... E André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, com a esperança que Gonçalo contasse aos Barrolos o confortável luxo de Corinde. Depois, picando com o garfo uma azeitona:

- Pois é verdade, meu querido Gonçalo, lá estive nessa grande Capital, depois um dia em

Sintra...

O Mateus entreabriu a porta para recordar a S. Exa. o amanuense do Governo Civil, que esperava.

- Pois que espere!- gritou S. Exa..

Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, com fome...

- Pois que almoce! - gritou S. Exa..

Aquele seco desprezo de André pelo pobre empregado, esquecido no banco de entrada, com a sua pasta sobre os joelhos - constrangia o Fidalgo. E espetando também uma azeitona:

- Dizias então, Sintra...

- Sem sabor - resumiu André. - Poeirada horrenda, femeaço medíocre... E já me esquecia.

Sabes quem

lá encontrei, na estrada de Colares? O Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos Anais, de chapéu alto. Ergueu logo os braços ao céu, desolado: - "E então esse Gonçalo Mendes Ramires não me manda o romance?" Parece que o primeiro número da Revista sai em dezembro, e ele precisa o original em começos de outubro... Lá me suplicou que te sacudisse, que te recordasse a glória dos Ramires. E tu devias acabar a Novela... Até convém que, antes de entrares na Câmara, apareça um trabalho teu, um trabalho sério, de erudição forte, bem português...

- Pois convém! - concordou vivamente Gonçalo.

- E à Novela só falta o Capítulo quarto. Mas esse justamente demanda mais preparação, maispesquisas... Para o acabar precisava o espírito bem sossegado, a certeza desta infernal eleição... Não é o animal do Júlio que me inquieta. Mas a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?

Cavaleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:

- Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma criança pequena, aflita, com medo que tenão chegue o prato de arroz-doce. Sossega, menino, apanhas o teu arroz-doce!... Mas, com efeito, encontrei o José Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com o Pita. A Verdade tem sido furiosamente ministerial... E esse Pita, agora quando souber que lhe tapei Vila-Clara, arde em furor contra mim. O que me é soberanamente indiferente; colerazinhas ou piadinhas do Pita não me tiram o apetite... Mas o José Ernesto admira o Pita, necessita do Pita, está empenhado em pagar ao Pita com um Círculo... Ainda no último dia me disse na Secretaria, até lhe achei graça: - "Eu vejo que os deputados por Vila-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu Ramires morrerem breve, então entra o Pita".

Gonçalo recuou a cadeira:

- Se eu morrer!... Que animal!

- Oh, se morreres para o Círculo! - atalhou o Cavaleiro rindo. - Por exemplo, se nos zangássemos, se amanhã entre nós surgisse uma dissidência... Enfim, o impossível!

O Mateus entrava com a terrina do caldo de galinha, que rescendia.

(continua...)

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