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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

Estela, que já então estava sentada, ergueu-se de golpe ao ouvir esta súbita e inesperada explicação. Sua face pálida, que o traje de viúva ainda mais empalidecia, tingiu-se de uns longes de vermelho. Podia ser confusão ou indignação. Durante uma pausa relativamente longa, Iaiá não tirou os olhos da madrasta. Essas duas lâmpadas buscavam examinar-lhe, no momento supremo, todos os recantos da consciência e todos os atalhos do passado. Não disse nada, para melhor gozar do abalo que acabava de produzir em Estela; era o juro do sacrifício. Mas Estela sentou-se daí a pouco, e foi a primeira que rompeu o silêncio.

— Tu estás louca, disse ela tranqüilamente. Quem te meteu semelhante idéia na cabeça?

— Não examinemos agora quem foi ou o que foi que me fez adivinhar a verdade, respondeu Iaiá; basta saber que decidi romper o casamento, que o mandei dizer ao Dr. Jorge, e que talvez dentro de poucos dias outra pessoa lhe pedirá minha mão.

Estas palavras transtornaram de todo a viúva, que atônita e irritada deu alguns passos na sala, buscando conter a explosão de seus sentimentos. Iaiá foi ter com ela, falou-lhe com brandura e submissão.

— Não se zangue, mamãezinha, se lhe não disse antes o que fiz agora mesmo; estava certa de que aprovaria, ou me perdoaria, quando menos. O homem de que lhe falo ama-me; e a senhora mesma não rejeitou a idéia de me ver casada com ele.

— Não tens culpa da imprudência que cometeste, disse Estela; porque antes disso tinhas perdido a razão. Vem cá; disseste-me aí uma palavra absurda, e é preciso que me digas outra com que expliques a primeira. Por que eu o amo? Continuou depois de alguns instantes. Que quer dizer com isso?

Iaiá curvou a cabeça.

— Fala!

— Não direi nada; essa palavra explica tudo. Se o ama, como eu creio, é a sua felicidade que lhe trago, não digo a troco da minha, porque seria lançar-lhe em rosto o sacrifício, mas a troco de uma ilusão, e nada mais. Não pense que lhe quero mal; não posso querer mal a quem me tem ou teve alguma afeição e substituiu dignamente minha mãe. Se lhe quisesse mal, é provável que não fizesse o que fiz.

Enquanto falava a enteada, Estela tinha a fronte inclinada e pensativa; atitude em que se conservou ainda durante algum tempo.

— Bem vê que o ama, disse Iaiá; seu silêncio confirma a minha suposição.

— Eu! exclamou Estela estremecendo. E lançando-lhe um dos olhares de gelo, que eram o reflexo do seu orgulho:

— Tu não entendes nada dos sentimentos, não conheces o coração. Eu amá-lo? eu? Não! não é possível!

— Talvez não, mas o que está feito, está feito.

A madrasta quis retê-la, mas não pôde; Iaiá saiu sem dizer nada. Estela ficou atordoada, confusa e até medrosa; reboavam-lhe aos ouvidos as palavras de Iaiá, não como um som exterior, mas como o brado da própria consciência. Venceu o abatimento, reagiu depressa como lho pediam as circunstâncias e a própria necessidade de sua natureza. Não teve tempo de cogitar no modo por que a enteada chegara a suspeitar um sentimento que ela recalcara no coração. Urgia reparar o mal feito pela imprudência da moça. Estela dispôs-se a responder desde logo à carta de Jorge, e não sabia ainda claramente o que havia de dizer. Tratou primeiro de chamar Raimundo, e vendo que ele não acudia foi ter com Iaiá.

— Raimundo foi levar uma carta minha ao Procópio Dias, respondeu esta.

Estela caiu numa cadeira. Pela primeira vez, alumiou-lhe o espírito uma idéia cruel: a idéia de que a suspeita de Iaiá fosse mais do que uma simples e inocente conjectura, fosse um ultraje. Os olhos que lançou à moça ardiam de indignação. Cobriu-os depressa, não para chorar, mas para fugir aos da outra. O olhar de Estela fez vacilar por um instante a convicção da enteada; a cólera pareceu-lhe sincera e até excessiva; mas o gesto que se lhe seguiu atenuou e desvaneceu a primeira impressão. Iaiá supôs ver na atitude da madrasta uma confissão involuntária, uma expressão de abatimento e desespero, como de pessoa que entrevê a felicidade própria e julga dever sacrificá-la à de outrem. Era generosa. Caminhou para ela, dobrou as curvas, pousou-lhe no regaço os braços, trêmulos de comoção; com as mãos desviou as de Estela e fitou-lhe os olhos, que estavam sombrios.

— Fui estouvada, confesso, disse ela; devia tê-la consultado antes de fazer o que fiz. Mas eu temia a sua oposição; e não queria torná-la desgraçada. Sou mais moça que a senhora; se tivesse de consolar-me, consolava-me depressa. Mas não tenho; não amava; cedi a um capricho, e não sinto a menor dor ao despedir-me dele. Ande, perdoe-me; e esteja certa de que não a amarei menos do que até agora.

(continua...)

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