Por Machado de Assis (1876)
Helena mordeu o lábio com desesperação, mas não respondeu. A cabeça descaiu-lhe lentamente como ao peso de uma idéia, a mais e mais opressora. Depois, ergueu-a; os olhos tristes, mas animados dos últimos raios de uma esperança, dirigiram-se para os de Estácio, que nessa ocasião pareciam falar as dores todas da paixão sufocada e rebelde. Ambos eles os baixaram à terra, medrosos de si mesmos.
Não creio que ela aceite facilmente a sua decisão, disse Melchior a Estácio, logo que pôde achar-se só com ele. Acautele-se; é capaz de fugir-nos.
Crê?
Não a conhece ainda? A posição em que estes acontecimentos a deixaram, repugna-lhe mais que tudo. Prefere a miséria à vergonha, e a idéia de que interiormente não a absolvemos, é o verme que lhe fica no coração.
De noite, recebeu Estácio uma carta de Salvador, acompanhada de um pacote.
“Refleti muito durante estas duas horas, dizia ele, e cheguei a uma conclusão única. Elimino-me. É o meio de conservar a Helena a consideração e o futuro que lhe não posso dar. Quando esta carta lhe chegar às mãos, terei desaparecido para sempre. Não me procure, que é inútil. Irei abençoá-lo de longe. Recaia, entretanto, sobre mim todo o ressentimento; eu só o mereço, porque só eu o provoquei. Vão as cartas de Helena; guardo três apenas, como recordação da felicidade que perdi.”
Estácio teve vontade de ler as cartas de Helena, mas a tempo recuou; mandou-as dar à moça. Helena, que estava com D. Úrsula, entregou-as a esta.
São a minha história, disse ela; peço-lhe que as leia e me julgue.
Havia em seus olhos uma expressão que não era usual. Recolheu-se imediatamente a seu quarto, onde jazeu longo tempo, calada, quieta, sinistra, o corpo atirado em um sofá, a alma sabe Deus em que regiões de infinito desespero.
CAPÍTULO XXVIII
Naquela noite, a segunda de tão extraordinários sucessos, foi que Estácio sentiu toda a violência do amor que lhe inspirara Helena. Enquanto os detinha um vínculo sagrado, amara sem consciência; e ainda depois de esclarecido pelo padre, o esforço empregado em vencer-se e a própria natureza da catástrofe não lhe permitiram ver a extensão do mal. Agora, sim; roto o vínculo, restituída a verdade, ele conhecia que a voz da natureza, mais sincera e forte que as combinações sociais, os chamava um para o outro, e que a mulher destinada a amá-lo e ser amada era justamente a única que as leis sociais lhe vedavam possuir.
Durante as primeiras horas o coração mordeu rebelde o freio da necessidade. A vigília foi longa e crua; e a reflexão veio enfim dominar a tempestade interior, ou antes alumiar seus destroços. Ele viu que o padre tinha razão; que era força desfolhar a esperança de um dia. Ao mesmo tempo, o exemplo de Helena deu-lhe ânimo. Senhora do segredo de seu nascimento, e consciente de amar sem crime, a moça apressara, não obstante, o casamento de Estácio e escolhera para si um noivo estimado apenas. Se uma vez a palavra delatora lhe rompeu dos lábios, ela a retraiu logo, fazendo o mais obscuro dos sacrifícios.
Não quis Estácio ser menos generoso. Logo de manhã escreveu a Mendonça, pedindo- lhe que não deixasse de os ir visitar nesse dia. Não o fez sem custo, mas fê-lo sem arrependimento. Tinha por fim apressar o casamento de Helena e o seu, condenando-se a sofrer calado os golpes do avesso destino.
A manhã entretanto não trouxe a Helena o esquecimento e a paz. A noite não lhe serviu de remédio, antes legou à aurora toda a sua mortal angústia. Debilitada, nervosa, impaciente, não podia a moça vencer-se nem suportar-se. Ora, repelia com sequidão as boas palavras de D. Úrsula; ora, pedia intercedesse com Estácio para a resolução que ela admitia como único meio de a poupar à vergonha. A excitação moral era grande; cumpria aquietá-la por meios persuasivos. Helena fugia a todos; não encarava Estácio e D. Úrsula, sem que o pejo lhe colorisse a face, mudança tanto mais visível quanto que a vigília e a dor a tinham empalidecido muito. Diziam-lhe que a vontade do conselheiro estatuíra uma lei na família, segundo a qual ela continuava a ser parenta como dantes, e tão amada como era. A moça agradecia a generosidade, mas não podia fugir à idéia de haver contribuído para uma usurpação. Queria que a deixassem ir ter com o pai, ao pé de quem a natureza e a consciência lhe indicavam que poderia estar sem remorso. Estácio e D. Úrsula respondiam-lhe com afagos e protestos; mas quando viram que estes eram inúteis, não houve mais que revelar-lhe a carta de Salvador.
O Padre Melchior incumbiu-se de lhe fazer essa delicada comunicação.
Seu pai, disse ele, praticou em seu favor um ato heróico; fugiu para lhe não fazer perder a consideração e o futuro. Leia esta carta, e veja se ela lhe dá a força necessária para resistir.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.