Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
É indispensável breve indicação topográfica para que possam entender a história aqueles que não conhecem a casa de modas Notre Dame de Paris.
Abre ela para Rua do Ouvidor quatro lojas como independentes, e cada uma com duas vidraças de exposição e sua porta de entrada; todas quatro se comunicam, porque cada qual tem sua porta, ou antes, passagem lateral, e todas quatro acabam no fundo completamente abertas para a galeria central de exposição de vestidos, de toilettes, etc.
A galeria central comunica-se pelo lado direito com um vestíbulo que tem porta para a Praça de S. Francisco de Paula, e pelo fundo um pouco à esquerda com a porta da escada para o sobrado, e bem no meio lança corredor que termina no armazém, que mostra o seu portão de ferro diante da Igreja do Rosário, ou da Sé Velha.
Ora bem: os dois esposos namorados entraram na segunda das quatro lojas confederadas, isto é, na loja das sedas.
Elvira ficou embevecida examinando belíssímas sedas que lhe apresentavam, e Alexandre vendo lindos vestidos expostos na galeria central subiu a esta para escolher algum e preparar com ele surpresa agradável à esposa.
Enquanto Alexandre escolhia o vestido, Elvira deu por falta do marido, e foi procurá-lo na terceira loja, e em seguida na quarta.
Mas o esposo estremecido, tendo feito a escolha de que se ocupara, e dado as suas ordens, desceu da galeria central e pôs-se a viajar pelas quatro lojas confederadas em busca de Elvira, que aliás acabava de subir para a mesma sala donde ele tinha saído.
Por explicável vexame, nem Alexandre perguntava aos caixeiros por Elvira, nem esta pelo marido, e um e outro andavam a fazer voltas pelas lojas e pela galeria central, não lembrando a nenhum dos dois que o mais acertado era ficar esperando.
Essa idéia veio enfim, mas infelizmente ao mesmo tempo a ambos: Alexandre na primeira loja e Elvira na quarta esperaram debalde um pelo outro dois ou três minutos.
Perturbaram-se os dois esposos namorados sem saber o que pensassem e foram de mal a pior.
Alexandre pôs-se de novo a procurar Elvira e foi dar consigo o armazém de fundo da casa, e somente parou esbarrando no portão de ferro, e vendo defronte a Sé Velha.
Elvira agitada e temerosa a buscar o marido subiu pela porta que abre para a Praça de S. Francisco de Paula, e, perdendo a diligência, deu volta pela Rua do Ouvidor, e apenas achou o criado que esperava firme à porta da segunda loja.
Não lhe dando o criado notícias do marido, Elvira pensou nas modistas e nas costureiras, e, ciumenta pela primeira vez, avançou para dentro da loja, atravessou a galeria central e subiu para o sobrado.
Alexandre voltava então do armazém do fundo, e se tivesse levantado os olhos para a escada, diante da qual passava, teria visto a esposa subindo-a; ele, porém, vinha já desapontado, porque um caixeiro que fora em serviço ao armazém acabava de dizer-lhe que sua senhora tinha saído pela porta da Praça de S. Francisco de Paula.
Por essa mesma porta se lançou Alexandre, e depois de gastar brevíssimo tempo a olhar para todos os lados sem avistar a sua Elvira fez o que ela tinha feito, deu volta pela Rua do Ouvidor e foi encontrar o criado imóvel no seu posto de obediência.
Sabendo que Elvira há pouco entrara de novo na loja, o esposo namorado e já senão suspeitoso ao menos apreensivo recomeçou os seus rodeios pelas lojas até que lhe veio à lembrança o sobrado, e partiu para atravessar a galeria central, e subir a ele:
Elvira não se perdeu nos labirintos do sobrado, porque conhecia bem o caminho das salas das modistas e costureiras, e lá chegando, pediu para dissimular loucas suspeitas que trazia, que lhe mostrassem os mais ricos vestidos feitos, enquanto com olhos penetrantes e com instinto feminil estudava fisionomias, e procurava indícios do que em ciúmes imaginara...
No meio da exposição e elogios que lhe faziam de delirantes vestidos, Elvira preocupada e menos circunspecta voltou-se rápida, e sem explicações nem despedida saiu acelerada.
A modista, que acudira ao seu chamado, e que assim ficara sem saber como com um vestido entre as mãos e a freguesa em retirada, disse em francês às companheiras:
- Esta senhora trouxe e leva ou o marido ou o amante em incêndio na cabeça.
Vejam como a senhora mais honesta, e nenhuma podia sê-lo mais do que Elvira, se expõe por imprudentes comoções mal contidas a maus e injustos juízos!...
Mas, feliz coincidência, quando Elvira, tendo descido a escada, voltava pela sala central para a primeira loja, Alexandre vinha da segunda para subir ao sobrado.
Era isso ao mesmo tempo, e ainda assim tão desatinados ambos, que já passavam sem se ver, nem dar um com o outro, quando Elvira que era sempre mulher, ao olhar-se embora sem parar a um espelho, viu nele a imagem de Alexandre em rápido vôo, e gritou-lhe doce e anciosamente.
- Alexandre!...
O final da história adivinha-se.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.