Por Eça de Queirós (1925)
Arthur quiz vêl-o melhor, mas o homem já des apparecera entre a multidão escura dos chapéus altos, que ao fundo dos degraus de pedra se movia n'um rumor pesado d'onde sahia uma espessa fumarada de cigarroz.
O Melchior, que parecia detestal.o e temel-o, explicava que era um d'esses meninos que tramavam contra o Rei, contra os fidalgos e que queriam a
Communa . .
• — Que está você para ahi a fallar de Communa, seu Melchior ? — disse, parando, um individuo alto, de peito concavo, nariz afilado, que trazia a gola do paletot erguida e tossia seccamente.
— Olá, Inglez, — fez o Melchior — por aqui ?
Está cá a pequena
O sujeito tossiu, cuspilhou :
— Está lá em cima com a Lola. —A sua voz rouca parecia difficil, de respiração escassa ; os labios entreabertos, anemicos, mostravam os dentes mal tratados.
— E como vae isso ? — perguntou Melchior.
O outro encolheu os hombros, com um geito triste dos beiços.
— Menos Venus ! Menos Venus ! — exclamou Melchior, chalaceando.
— Seu gajo — fez o outro, dando-lhe uma pal madinha no estomago, com um tom canalha.
E curvado, tossindo, subiu devagar para os camarotes.
Está com a Concha, — disse logo Melchior — uma belleza, menino, a melhor hespanhola que tem
vindo a Lisboa. Que elle, está aqui, está na cova ! Mas a Concha ! — E muito enthusiasmado : — Vamos a vêr se a pescamos !
Entraram. Melchior, de pé, explorava as torrinhas com o binoculo : queria que Arthur a visse ! Era d'endoidecer, uns modos de duqueza, uns olhos, uma cintura , !
Mas não a descobriu —e o panno ergueu-se.
No palco, finas architecturas ornadas de monstros chimericos e d'idolos hieraticos, entre palmeiras côr de bronze e florescencias sanguiReas de cactus, esbatiam-se n'uma pulverisaçõo de luz abrazada, como uma nevoa imponderavel d'ouro faiscante.
Pausadas theorias de sacerdotes com barbas d'estopa entravam lentamente, magros guerreiros corriam com gestos desengonçados, e as bayaderas, as carpideiras, formavam um bailado, que ora parecia um rito nupcial, ora um ceremonial funerario: cambraietas esvoaçavam misturando o negro e o branco, discos de metal retiniam, e a instrumentacão, o canto, tinham gravidades de santuario e mollezas de serralho.
Em redor, com risadinhas, commentavam-se as dançarinas : havia exames lubricos de pernas e de quadris, e Arthur impacientava-se @om aquellas relices de luxuria, cortando sujamente a eloquencia da orohestra.
Escutava, immovel, com a pelle arrepiada de admiração, devorando a decoração ardente, o girar das bailarinas, e vinham-lhe pensamentos, reminiscencias, sentimentalidades vagas, logo dispersas pelas rajadas da instrumentação. Todo o seu ser, levado nas massas d'harmonia, vibrava das emoções que ellas continham ; os seus hombros vergaramse quasi n'um movimento d'adoração, ao apparecer de Celina, triumphal, no seu pallcê refulgente de pedrarias, sob doceis de plumas. Teve o mesmo extasi que Vasco da Gama, ao penetrar n'um recanto de bosque sagrado, em que os aromas têm uma sensualidade venenosa, gorgeios raros erram n'uma flora flammejante e aguas brandas gotejam de taças de jaspe ; as largas phrases de Nelusko encheram-lhe o peito do sopro das paixões grandiosas ; sentiu, com o duetto, todas as febres d'um amor asiatico e mortal e quando, aos cantos suaves do galeão que se afasta, o panno desceu, ficou como que esmagado, com um cansaço d'alma, piscando os olhos ainda cheios dos deslumbramentos da decoração, tremulo de todas as sensações sobrenaturaes que percorrera.
Melchior, esse, estava desesperado com o tenor, tinha vontade de lhe dar uma desanda . . . Um sujeito com tons oleosos na pelle e um raminho de alecrim no fraque, quiz aplacai-o : era tão bem rapaz, o tenor
— Eu não lhe vou ás ceias, eu não lhe vou ás ceias — interrompeu Melchior irritado, sahiudo.
— Olha o asno do Melchior — disse o sujeito olhando em redor, attonito. — Forte asno ! Que quer elle
E ia seguindo, ao comprido das cadeiras, com grandes gestos, explicando aos que o interrogavam sobre a sua colera :
—É o asno do Melchior ! Que quer elle Forte asno !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.