Por Eça de Queirós (1875)
Amaro sorriu - escutando em cima o piano.
Era Amélia que tocava como outrora a valsa dos Dois Mundos; e João Eduardo, muito chegado a ela, voltava as folhas da música.
- Quem entrou, Ruça? gritou ela, sentindo os passos da rapariga nas escadas.
- O Sr. padre Amaro.
Um fluxo de sangue abrasou-lhe o rosto - e o coração batia-lhe tão forte, que ficou um momento com os dedos imóveis sobre e teclado.
- Não se precisava cá do Sr. padre Amaro, rosnou João Eduardo por entre dentes.
Amélia mordeu o beiço. Teve ódio ao escrevente: num instante repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto dela: pensou com deleite, como depois de casada (á que tinha de casar) se confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia naquele momento escrúpulos; e quase desejava que o escrevente lhe visse no rosto a paixão que a revolvia.
- Credo, criatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá, que nem me deixa os braços livres para tocar!
Terminou bruscamente a valsa dos Dois Mundos, começou a cantar o Adeus:
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente, - dirigindo o canto, através do soalho, ao coração do pároco, embaixo.
E o pároco, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canapé, devorava todos os tons da voz dela - enquanto a S. Joaneira tagarelava, contando as peças de algodão que comprara para lençóis, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem juntos...
- Uma felicidade por aí além, interrompeu o cônego erguendo-se pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem sós...
- Ah, lá nisso, disse a S. Joaneira rindo, fio-me nele, que é um homem de bem às direitas.
Amaro, ao subir a escada, tremia - e, mal entrou na sala, o rosto de Amélia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as vésperas do noivado a tivessem embelezado, e a separação lha tornasse mais apetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão, outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:
- Os meus parabéns... Os meus parabéns...
Voltou as costas, e foi conversar com o cônego que se enterrara na sua poltrona, queixando-se de enfastiamento e reclamando o chá.
Amélia ficara como abstrata, correndo inconscientemente os dedos pelo teclado. Aquele modo do padre Amaro confirmava a sua idéia: queria a todo o custo descartar-se dela, o ingrato! fazia "como se nada tivesse havido", o vilão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, da Arcada, de tudo - sacudia-a da sua imaginação, do seu coração, da sua vida como se sacode um inseto que tem peçonha!... Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o escrevente; roçava-se lhe pelo ombro, rendida, com risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos; depois ela beliscou-o, ele deu um gritinho exagerado. - E a S. Joaneira contemplava-os babosa, enquanto o cônego dormitava já, e o padre Amaro, abandonado a um canto como outrora o escrevente, ia folheando o velho álbum.
Mas um brusco repique da campainha veio sobressaltá-los todos: passos rápidos galgaram a escada, pararam embaixo na saleta; e a Ruça apareceu dizendo "que era o Sr, padre Natàrio, que não desejava subir, e queria dar uma palavra ao senhor cônego".
- Fracas horas para embaixadas, rosnou o cônego, arrancando-se com custo ao fundo confortável da poltrona.
Amélia fechou logo o piano - e a S. Joaneira pousando a meia foi em bicos de pés escutar ao alto da escada: fora ventava forte, e para os lados da Praça afastava-se o toque de retreta. Enfim a voz do cônego chamou, de baixo, da porta da saleta:
- Ó Amaro?
- Padre-mestre?
- Venha cá, homem. E diga à senhora que pode vir também.
A S. Joaneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre Natàrio enfim descobrira o liberal!
A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e na parede, num velho painel muito escuro - que ultimamente o cônego dera à S. Joaneira - destacava uma face lívida de monge e um osso frontal de caveira.
O cônego Dias acomodara-se ao canto do canapé, sorvendo refletidamente a pitada: e Natário, que se agitava pela sala, exclamou logo:
- Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não quis subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá para nós. Estava a começar a dizer ao colega Dias... Tive lá em casa o padre Saldanha. Temo-las boas!
O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, já inquieto, perguntou:
- Coisa que nos toca?
Natário começou com solenidade erguendo alto o braço:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.