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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Eu também, agora, pouco apareço em Corinde. E compreendes bem que não me retêm emOliveira os cuidados da Administração... Mas este casarão arrefeceu, alargou, desde a morte da mamã. Ando aqui como perdido. E acredita, quando cá me demoro, são uns passeios tristonhos por esses jardins, pela rua Grande... Ainda te lembras da rua Grande?... Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!

Gonçalo murmurou, por concordância, simpatia renovada:

- Eu também me aborreço na Torre...

- Mas tens outro gênio!... E eu realmente sou um elegíaco.

Correu, com um esforço, o fecho perro da porta envidraçada. E limpando os dedos ao lenço perfumado:

- Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes cerros escalvados, grandesrochedos agrestes... As vezes, cá dentro da alma, necessito o ermo de S. Bruno...

Gonçalo sorria daquele apetite ascético, murmurando com preciosidade, através da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E no terraço, junto à balaustrada de pedra enramada de hera, galhofou, louvando o areado alinho, o reluzente viço do jardim:

- Com efeito, para um discípulo de S. Bruno, que escândalo todo este asseio! Mas para umpecador como eu, que delícia!... O jardim da Torre anda um chavascal.

- A prima Jesuína gosta de flores. Tu não conheces a prima Jesuína? Uma velha parenta damamã, que governa agora a casa. Coitada! e com um escrúpulo, com um amor... Se não fosse a santa criatura, os porcos fossavam nos canteiros... Meu filho, onde não há saia, não há ordem!

Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça azul que transbordavam de gerânios, de sécias, de canas-da-índia. Gonçalo recordou a véspera de S. João em que rolara por aqueles degraus, num trambolhão tremendo, com os braços carregados de foguetes. E lentamente, através do jardim, evocavam memórias da camaradagem antiga. Lá se conservava o trapézio, dos tempos em que ambos cultivavam a religião heróica da força, da ginástica, do banho frio... Naquele banco, sob a magnólia, lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o Fronteiro de Arzila. E o alvo? O alvo onde se exerciam à pistola, para os futuros duelos, inevitáveis na campanha que ambos meditavam contra o velho Sindicato Constitucional?... - Oh! toda essa parte do muro, que pegava com o lavadouro, fora derrubada depois da morte da mamã, para alargar a estufa...

- De resto o alvo era inútil! - acrescentou o Cavaleiro. - Eu logo por esse tempo entrei tambémno Sindicato... E agora entras tu, pela porta que eu te abro!

Então Gonçalo, que colhera e esmagara entre os dedos, para lhe sorver o perfume, folhas de lúcia-lima - acudiu com uma franqueza, que aquele desenterrar de recordações tornava mais penetrante e sentida:

- E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu afianças a eleição, com segurança?Não surgirá dificuldade, Andrezinho?... Esse Pita é um hábil!

O Cavaleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do colete:

- Da habilidade dos Pitas se ri a força dos Cavaleiros...

Por três degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de arvoredo e sombra, onde desabrochava desde maio, com esplendor, o tão celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que deleitara uma Rainha. Aquele fácil desdém pelo Pita confirmava a segurança da Eleição. Gonçalo, caminhando respeitosamente como num Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavaleiro:

- Uma beleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas sublimes... Aquelas repolhudas, além,que luxo! E estas amarelas? deliciosas!... Olha este encanto! o ruborzinho a surdir, a raiar, do fundo das pétalas brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!

O Cavaleiro cruzara os braços, com gracejadora melancolia:

- Pois vê tu! Tal é a minha solidão social e sentimental que, com todas estas rosas abertas, nãotenho a quem mandar um ramo!... Estou reduzido a florir as Lousadas!

Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do Fidalgo:

- As Lousadas! Oh que desavergonhadas!

André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, num inquieto reparo de curiosidade:

- Por quê?... Desavergonhadas, por quê?

- Por quê? Porque o são! Pela sua natureza, e pela vontade de Deus!... São desavergonhadascomo estas rosas são vermelhas.

E o Cavaleiro, tranqüilizado:

- Ah, genericamente... Com efeito têm imensa peçonha. Por isso eu as cubro de rosas. E emOliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com elas um chá respeitoso!

- Pois não as amansas - rosnou o Fidalgo.

Mas o Mateus aparecera nos degraus de tijolo com o guardanapo na mão, a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavaleiro colheu para Gonçalo uma "rosa triunfal" - e para si um "botão inocente". E, enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume de outras roseiras quando o Cavaleiro parou com uma idéia:

- A que horas vais tu para Oliveira, Gonçalinho?

O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencionava aparecer em Oliveira, toda essa semana...

- Por quê? É urgente que vá a Oliveira?

(continua...)

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