Por Machado de Assis (1891)
-Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na comissão; é para não estragar as carruagens. ..
-Demais, o coupé podia ser da outra senhora que ia com ela.
O major deu dous passos, com as mãos atrás, e parou diante de Rubião. - Da outra... ou do Padre Mendes. Como vai o padre? Boa vida, naturalmente.
-Mas, papai, pode não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ela sempre me trata bem, e quando estive doente no mês passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes.
-Pelo moleque! bradou o pai. Pelo moleque! Grande favor! "Moleque, vai ali à casa daquele reformado e pergunta-lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!" Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha minha! pobre, mas honesta!
Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, comovida, sentiu-se também vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da família, poucas cadeiras, uma mesa redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas litografias encaixilhadas e em pinho pintado de preto, uma era o retrato do major em 1857, a outra representava o Veronês em Veneza, comprado na Rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os móveis reluziam de asseio, a mesa tinha um pano de crivo, feito por ela, o canapé uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes com um retalho de pano todas as manhãs.
CAPÍTULO CXXXI
RUBIÃO tratou-os com simpatia. Não continuou a defender a gente Palha, para não desesperar o major. Pouco depois, despediu-se, prometendo, sem convite, que lá iria jantar "um dia destes".
-Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise.
-Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça.
Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar à frente por causa dos sapatos, foi à janela para vê-lo sair.
CAPÍTULO CXXXII
LOGO QUE RUBIÃO dobrou a esquina da Rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e foi ao pai, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das Ilhas ou os Desterrados da ilha da Barra. Foi, o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais de vinte anos; era toda a biblioteca do pai e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cor. Achava-lhe agora um sabor particular, por motivo dos seus recentes desgostos.
Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e betamos de uma vez; eis o brinde que vos proponho. A saúde dos bons e valentes oprimidos, e ao castigo dos seus opressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saúde.
-Sabe de uma cousa, papai? Papai compra amanhã latas de conserva, ervilha, peixe, etc., e ficam guardadas. No dia em que ele aparecer para jantar, põe-se no fogo, é só aquecer, e daremos um jantarzinho melhor.
-Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido.
-O meu vestido? Compra-se no mês que vem, ou no outro E espero.
-Mas não ficou ajustado?
-Desajusta-se; eu espero.
-E se não houver outro do mesmo preço?
-Há de haver; eu espero, papai.
CAPÍTULO CXXXIII
AINDA NÃO DISSE, - porque os capítulos atropelam-se debaixo da pena,-mas aqui está um para dizer que, por aquele tempo, as relações de Rubião tinham crescido em número. Camacho pusera-o em contacto com muitos homens políticos, a comissão das Alagoas com várias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do comércio e da praça, os teatros com alguns freqüentadores e a Rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando apareciam as barbas e o par de bigodes longos uma sobrecasaca bem justa, um peito largo, bengala de unicórnio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era o Rubião -um ricaço de Minas.
Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-no discípulo de um grande filósofo, que lhe legara imensos bens,-um, três, cinco mil contos. Estranhavam alguns que ele não tratasse nunca de filosofia, mas a lenda explicava esse silêncio pelo próprio método filosófico do mestre, que consistia em ensinar somente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses discípulos? Iam à casa dele, todos os dias,- alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os comensais. Não seriam discípulos, mas eram de boa vontade Roíam fome, à espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do anfitrião. Entre os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade que os primeiros acentuaram bem, mostrando maior intimidade dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os fez suportáveis entre si, e todos acabaram na doce e comum confissão das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, também os novos lhe deviam dinheiro, ou em espécie,-ou em fiança no alfaiate, ou endosso de letras, que ele pagava às escondidas, para não vexar os devedores.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.