Por Machado de Assis (1876)
Decerto. Helena obedeceu à vontade de seus dois pais, aceitando o equívoco em que ambos a vieram colocar. Obedeceu à força. Agora, está reconhecida; é um fato que não podemos discutir nem alterar.
Estácio esteve silencioso alguns instantes.
Mas, posso eu, à vista do que acabamos de ouvir, conservar a Helena um título que rigorosamente lhe não pertence? Helena não é minha irmã; é absolutamente estranha à nossa família; o título que nos ligava, desaparece. Por que motivo continuaríamos nós uma falsificação.
De seu pai? atalhou Melchior.
Padre-mestre!
Aquele homem falou verdade; mas nem a lei nem a Igreja se contentam com essa simples verdade. Em oposição a ela, há a declaração derradeira de um morto. A justiça civil exige mais do que palavras e lágrimas; a eclesiástica não extingue, com um traço de pena, a afirmação póstuma. Demais, não espere que esse homem reproduza perante ninguém as declarações de há pouco; só o fará quando perder a última esperança. É evidente que ele nada quer alterar do que seu pai estabeleceu, e antes se sacrificará do que envergonhará a filha. Sente-se disposto a fazer o que ele recusa?
Estácio não respondeu; tinham entrado na chácara, e caminhavam lentamente na direção da casa. Melchior deteve-o.
Estácio! disse o padre, depois de olhar para ele um instante. Compreendo, quisera despojar Helena do título que seu pai lhe deixou, para lhe dar outro, e ligá-la à sua família por diferente vínculo.
Estácio fez um gesto como protestando.
Esquece duas coisas graves: o escândalo e o casamento de um e outro; já se não pertence, nem ela se pertence a si. Vamos lá; seja homem. Sepultemos quanto se passou no mais profundo silêncio, e a situação de ontem será a mesma de amanhã.
Quando Estácio e Melchior entraram em casa, já D. Úrsula sabia tudo; lograra desatar a língua de Helena. Abatida com a leitura da carta, não lhe levantara o ânimo a narração verbal da moça; preferia talvez que Helena fosse verdadeiramente filha do conselheiro. Alguns meses de espaço e a convivência afetuosa produziram a diferença de sentimento entre o primeiro e o último dia.
Nada podemos fazer já agora, disse o padre; provocaríamos um escândalo sem esperança do resultado.
D. Úrsula fez um gesto de assentimento. Chamada a ouvi-los, Helena desceu daí a alguns minutos. A cor da vergonha tingiu-lhe a face; logo que ela deu com Estácio, que a esperava, ao lado de Melchior, ambos calados, mas sem nenhum vislumbre de irritação. Após um silêncio longo e abafado, Estácio comunicou a Helena a resolução da família e seus sentimentos de generosidade e confiança; concluiu dizendo que, sobre todas as coisas, prevalecia a vontade derradeira de seu pai. Helena empalideceu e cerrou os olhos; D. Úrsula correu a ampará-la. O organismo debilitado pelas vigílias e comoções das últimas horas não pudera resistir; mas o delíquio foi leve e curto. Voltando a si, Helena beijou ardentemente as mãos de D. Úrsula e as do padre, estendeu a sua a Estácio, que a apertou; depois, com voz trêmula, disse:
Meu coração ficará eternamente grato ao resto de estima que não perdi; a situação mudou, e força é mudar com ela. Não quero a proteção da lei, nem poderia receber a complacência de corações amigos. Cometi um erro, e devo expiá-lo. Enquanto a vergonha vivia só comigo, era possível continuar nesta casa; eu atordoava-me para esquecê-la; mas agora que é patente, vê-la-ei nos olhos de todos e no sorriso de cada um. Peço-lhes que me perdoem e me deixem ir! Não deveria ter entrado, é certo. Expio a fraqueza de um coração que eu me habituara a amar de longe, com o prestígio do mistério e o encanto do fruto proibido. De hoje em diante, amá-los-ei de longe ou de perto, mas estranha... e perdoada!
Dizendo isto, Helena abraçou D. Úrsula, como a pedir o benefício da sua intervenção.
D. Úrsula abraçou-a igualmente, mas fez com a cabeça um gesto negativo. Melchior observou que a repulsa era pelo menos um sintoma de desprendimento pouco explicável em relação à família que, sem embargo dos últimos sucessos, não lhe retirara a estima nem a proteção.
Herdou o orgulho do pai! murmurou Estácio.
A frase foi dita em voz baixa, mas Helena ouviu-a, e seus olhos fulgiram de momentânea satisfação. Atribuir a orgulho o que era vergonha e remorso, dava-lhe certa superioridade que a moça julgava não ter naquele lance. Protestou em favor de seus sentimentos de gratidão, com a palavra viva, animada, cordial que todos três lhe conheciam, interrompida a intervalos pela comoção interior, e pelas lágrimas que lhe escorriam dos olhos, quase exaustos de chorar. Estácio pôs termo a todas as hesitações.
Pois bem, disse ele, será isso mais tarde; a lei é por nós; e nossa vontade é que nos obedeça.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.