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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

A loja Notre Dame de Paris, bem que não seja exclusivamente de fazendas e de modas francesas para senhoras, é, contudo, principalmente atraidora do belo sexo, e representa no seu imenso mundo capital avultadíssimo, que deve vencer juros pagos pelos consumidores e consumidoras; além disso, a loja contém e alimenta numerosa população de empregados de escritório, de caixeiros às dezenas, de modistas e costureiras em número elevado, de serventes e criados todos vencendo honorários e aluguéis.

Calculem a despesa do estabelecimento que aliás floresce e se agiganta!... que soma de contos de réis gastos anualmente com essa população!...

Calculem o que ganham em seu comércio as muitas outras, embora menos gigantescas, lojas de modas da Rua do Ouvidor, e hoje de outras ruas.

Calculem e façam idéia do que custam a moda e a elegância da cidade do Rio de Janeiro!...

Porque em cada corte de seda, em cada toilette, em cada xale, chapéu, gravatinha, etc., a compradora paga e deve pagar no seu tanto proporcional, além do valor e lucro do objeto que adquire, o aluguel da casa, e os honorários dos empregados de escritório, dos caixeiros, das modistas, das costureiras, dos serventes e dos criados, e antes de tudo isso os tributos da alfândega, que na verdade são de arrasar!...

Minhas belas e excelentíssimas leitoras, que devo confessar a mais incontestável verdade: as modas, o luxo, a chamada elegância das senhoras custam muito caro!... mas também juro e sustento que as senhoras merecem isso e muito mais; têm direito de educação maldirigida, imposta, porém, pela sociedade despótica e opressora do sexo feminino e esses sacrifícios materiais, que são em geral enfeites, flores e fantásticos artifícios, adornadores fictícios, efêmeros, pobres compensações da escravidão da mulher em nossa vida e em nossos costumes sociais.

Portanto bem podia haver ainda mais duas dúzias de lojas de modas como a de Notre Dame de Paris na cidade do Rio de Janeiro sem que o sexo feio tivesse o direito de queixar-se dos tributos que paga à vaidade do belo sexo.

Quanto a mim, a loja de modas Notre Dame de Paris só apresenta possíveis inconvenientes na grande extensão dos seus domínios que acabaram por tornar indispensável aos seus fregueses conhecimento exato de sua carta topográfica.

E vem aqui a propósito a história ingênua que prometi contar.

D. Elvira tem apenas 16 anos de idade e está casada há quatro meses. Alexandre de Menezes, o escolhido do seu coração, jovem bonito e rico que ainda vai completar os seus 22 anos.

Duas crianças, noivos, que passam a lua-de-mel a brincar, dois namorados que vivem em doces enlevos a acariciar-se mutuamente. Elvira e Alexandre ainda não podem separar-se durante uma hora sem saudades.

O mais ligeiro incidente, um espinho de roseira que no jardim prenda passageiramente o vestido de Elvira, sobressalta Alexandre, temeroso de algum arranhão no pé ou no braço da esposa: esta, se uma abelha morde a bela fronte do noivo, se aflige, e maldiz das flores que atraem as abelhas.

São dois esposos que, se viverem vinte e cinco anos, hão de celebrar o casamento de prata, e se chegarem aos cinqüenta celebrarão o de ouro.

Agora suponham que o que vou referir se passou há dois meses, ou há um mês, ou há quinze dias, pouco importa quando.

Um dia, Alexandre levou Alvira a passear pela Rua do Ouvidor; um criado os acompanhava, porque naturalmente o jovem esposo contava que a menina esposa, comprando cortes de sedas e enfeites, quereria fazê-los conduzir logo para casa.

Esta explicação seria de todo vã, se ela não servisse para indicar que os dois noivos preferiam sempre passear, estar, viver a sós.

Era uma hora da tarde, os esposos namorados tinham já tomado sorvetes, falado para Petrópolis pelo telefone, admirado tranças e crescentes para penteados, que Elvira não comprou, lastimando-se de não poder usá-los, porque os seus cabelos negros e ondeados que soltos lhe caíam até um palmo acima dos pés, e para a frente levados a esconderiam toda em densa nuvem de enchentes de anéis, não lhe permitiam sem hipérbole monstruosa crescente suplementar.

O criado já levava em cartões, caixas e embrulhos duas ricas toilettes, um chapéu maravilhosamente extravagante, três cortes de seda para vestidos, duas estupendas saias de cauda, um delicadíssimo guarda-jóias e não sei que mais...

Era uma boa carga de objetos de luxo conduzida um pouco fora de vila e termo, atrás daquele casal de pombinhos que não davam satisfações ao mundo, porque na perfeita felicidade do seu amor só se ocupavam de si mesmos.

Oh! egoísmo abençoado!...

Era, porém, uma hora da tarde, quando Alexandre e Elvira, já de volta de seu passeio, entraram na loja Notre Dame de Paris pela segunda porta, segunda para quem sobe a rua.

(continua...)

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